O Valor da Consciência Perdida.

Poema 73 de 73
O Valor da Consciência Perdida.

Que escolhas farei, se já vejo turvas e inquietas as águas que me rodeiam neste tempo de poucas luzes, que escondem os escassos caminhos que me cabem?

Como posso perceber tanta anarquia e tão pouca reflexão?

Como posso perceber tão pouca sinceridade e tanta aflição?

Como posso perceber tanta injustiça e tão pouco arrependimento?

Uma vasta sombra de dúvidas cobre minha alma; tenho a sensação de um inverso de valores tocando os meus pés, que me afoga e congela nessa triste natureza do tempo.

Estou a caminhar sobre lama, mas não rastejarei sobre a sua sujeira.

Onde salvar minhas orações, se as casas só permitem visitas se, antes, a intenção do dízimo — falso e distraído — for própria e não gentilmente oferecida?

O que se cobra é o que não se pode pedir, e o que se merece não precisa ser pedido, nem tampouco cobrado.

Minha alma ainda me respeita; vou chorar pela gratidão, rezar pela verdade e cantar pelo amor.

Esses sentimentos irei oferecer à minha consciência, pois este tempo que me foi dado me traiu, e eu rasguei o meu semblante para esconder a minha vergonha.

Levarei comigo as lembranças dos primeiros valores da minha existência. O que foi ofertado com apenas pão e vinho, meu coração sorriu, e a despedida se fez em lágrimas.

Ainda recordo que o beijo na face é tradução de paz e de um acordo; hoje é símbolo do aceite do pecado conjugado — o traidor que afaga com a mão da traição.

A parcela do ouro que recebi ao chegar, essa irei levar — sem identidade, apenas como preço da minha consciência.

Minha consciência entendeu: o que veio e o que segue são apenas o que respeitei e ofereci pelo princípio dos três sentimentos maiores, que julguei necessários à minha existência.

O valor da minha consciência é o valor do sentido do que fui e do que aqui pude ser; sem motivo próprio para com as minhas vaidades, curvei-me e agradeci.

Meus objetos do sentimento eu os fiz valer, na intenção de me ver melhor e de fazer os outros serem tão melhores quanto eu.

Assim entendo que o acaso me trouxe, mas quem me levará num leito de conforto são os sentimentos maiores que escolhi oferecer à minha consciência no momento desse novo início.

O que se chama fim não me assusta; não o persigo — a cada momento eu o percebo, tão longe que o toco, tão perto que o cheiro.

Quando percebi sua sombra, muito já se fora.

Quando percebi seu toque, quase nada eu sabia.

Quando percebi seu andar, nunca soube aonde eu ia.

Meu acaso é meu destino, que aprendi pelo tempo, pago com a mesma moeda para que a justiça se complete.

Vou flutuar, esconder o tempo por debaixo de uma corrente.

Vou proteger meus delírios, escondendo-os onde o tempo não os escuta.

Meu início não foi minha escolha. Minha estrada só eu a fiz; depois há de ser o merecido. Que os ombros suportem.

Vou inverter a lógica: não questiono a ida, questiono a vinda.

O que não se vê, toca-se com as pontas dos dedos; o que se sente, aperta-se com as palmas das mãos.

Vou decifrar o motivo; afinal, muito do que somos para pouco serve — não entenderam por que vieram, gastaram o tempo e não ganharam o ouro.

Irei decifrar os valores, colocar identidade nos motivos e ver o que a alma precisa.

Aquilo que no fogo arde é um pecado que se dissolve.

Aquilo que no fogo brilha é um pensamento que explode.

Aquilo que no fogo apaga é uma verdade que se ouve.

Vou terminar, vou esperar; se gritarem comigo, colocarei as minhas mãos na empunhadura da espada. Não serei fraco; os que comigo gritam, com eles silencio.

Não sou o que de mim fizeram, sou o que de mim eu fiz.

Se não me compreenderam, não podem me julgar; se o fizerem, é pelo prazer da inveja.

--------------- FIM ---------------

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