O Valor da Consciência Perdida.

Que escolhas farei, se já vejo turvas e inquietas as águas que me rodeiam neste tempo de poucas luzes, que escondem os escassos caminhos que me cabem?
Como posso perceber tanta anarquia e tão pouca reflexão?
Como posso perceber tão pouca sinceridade e tanta aflição?
Como posso perceber tanta injustiça e tão pouco arrependimento?
Uma vasta sombra de dúvidas cobre minha alma; tenho a sensação de um inverso de valores tocando os meus pés, que me afoga e congela nessa triste natureza do tempo.
Estou a caminhar sobre lama, mas não rastejarei sobre a sua sujeira.
Onde salvar minhas orações, se as casas só permitem visitas se, antes, a intenção do dízimo — falso e distraído — for própria e não gentilmente oferecida?
O que se cobra é o que não se pode pedir, e o que se merece não precisa ser pedido, nem tampouco cobrado.
Minha alma ainda me respeita; vou chorar pela gratidão, rezar pela verdade e cantar pelo amor.
Esses sentimentos irei oferecer à minha consciência, pois este tempo que me foi dado me traiu, e eu rasguei o meu semblante para esconder a minha vergonha.
Levarei comigo as lembranças dos primeiros valores da minha existência. O que foi ofertado com apenas pão e vinho, meu coração sorriu, e a despedida se fez em lágrimas.
Ainda recordo que o beijo na face é tradução de paz e de um acordo; hoje é símbolo do aceite do pecado conjugado — o traidor que afaga com a mão da traição.
A parcela do ouro que recebi ao chegar, essa irei levar — sem identidade, apenas como preço da minha consciência.
Minha consciência entendeu: o que veio e o que segue são apenas o que respeitei e ofereci pelo princípio dos três sentimentos maiores, que julguei necessários à minha existência.
O valor da minha consciência é o valor do sentido do que fui e do que aqui pude ser; sem motivo próprio para com as minhas vaidades, curvei-me e agradeci.
Meus objetos do sentimento eu os fiz valer, na intenção de me ver melhor e de fazer os outros serem tão melhores quanto eu.
Assim entendo que o acaso me trouxe, mas quem me levará num leito de conforto são os sentimentos maiores que escolhi oferecer à minha consciência no momento desse novo início.
O que se chama fim não me assusta; não o persigo — a cada momento eu o percebo, tão longe que o toco, tão perto que o cheiro.
Quando percebi sua sombra, muito já se fora.
Quando percebi seu toque, quase nada eu sabia.
Quando percebi seu andar, nunca soube aonde eu ia.
Meu acaso é meu destino, que aprendi pelo tempo, pago com a mesma moeda para que a justiça se complete.
Vou flutuar, esconder o tempo por debaixo de uma corrente.
Vou proteger meus delírios, escondendo-os onde o tempo não os escuta.
Meu início não foi minha escolha. Minha estrada só eu a fiz; depois há de ser o merecido. Que os ombros suportem.
Vou inverter a lógica: não questiono a ida, questiono a vinda.
O que não se vê, toca-se com as pontas dos dedos; o que se sente, aperta-se com as palmas das mãos.
Vou decifrar o motivo; afinal, muito do que somos para pouco serve — não entenderam por que vieram, gastaram o tempo e não ganharam o ouro.
Irei decifrar os valores, colocar identidade nos motivos e ver o que a alma precisa.
Aquilo que no fogo arde é um pecado que se dissolve.
Aquilo que no fogo brilha é um pensamento que explode.
Aquilo que no fogo apaga é uma verdade que se ouve.
Vou terminar, vou esperar; se gritarem comigo, colocarei as minhas mãos na empunhadura da espada. Não serei fraco; os que comigo gritam, com eles silencio.
Não sou o que de mim fizeram, sou o que de mim eu fiz.
Se não me compreenderam, não podem me julgar; se o fizerem, é pelo prazer da inveja.
--------------- FIM ---------------
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