Ser ou não ser… que seja a questão.

Com a ternura que me cruza o rosto, rogo, por um imperativo da alma, que meu humilde desejo de existir se cumpra, livre da sombra da dúvida e do medo, ancorado na coragem que me sustenta e me liberta.
Se ela, a dúvida, insistir em me assombrar, que eu abandone o medo como um manto gasto e lhe prenda os pés com as cordas da minha obediência.
Aos 73 anos, amado pela solidão, perseguido pelos dias que se foram — sem remorso —, caminho com os ecos de todos os meus sentimentos, agarrados nas cordas dos conceitos, que foram doados por aqueles que, conscientes no exercício do dom do amor, me criaram.
Agora rezo com as preces que tornam meus pecados simples lembranças do tempo em que, por coragem, não deixei o medo me consumir.
Cada passo nesta jornada foi um ato de criação, onde ergui minhas heranças e teci a tapeçaria da minha história, a qual, por ser minha, eu abençoei.
Por isso, clamo — sem saber se por direito ou graça — por um instante a mais, um fôlego que o tempo, este caçador implacável, me nega, e que eu, em teimosa rebeldia, também lhe nego.
Abandonei fragmentos de mim: ideias que floresceram e morreram, sonhos que se aninharam em outros corações e, sim, amores e seus inevitáveis desconcertos, perdidos no tempo, transformados em relíquias de orações abandonadas.
Sigo adiante, um peregrino de inquietações e desejos, por uma estrada que se estreita, onde a única direção aponta para um norte onde os nossos desejos escondidos foram enterrados.
Hoje, sinto-me o inventário da história que foi escrita com os meus versos de loucura e desenhada pelas palavras que minha consciência em explosão assim determinou.
O tempo me esculpiu com suas injúrias, a consciência me curvou com seu peso e o esforço de me inventar deixou suas cicatrizes.
É preciso um veredito: a verdade toca o coração; a mentira, a face do desencanto.
Choro pelas primaveras que não verei e busco refúgio sob as asas da misericórdia.
Serei eu uma voz anulada pelas palavras que silenciei? Ou será agora a derradeira aflição de uma alma que grita, enquanto o fim anseia pelo repouso do silêncio?
Vou me ocultar na relva densa, vendar-me com os espinhos dos cactos — serei invisível à presença, cego ao desejo de observar.
Irei ao encontro do tempo e o questionarei: por quê?
É hora de me desfazer, mas não de deixar de fazer.
Navego no estreito entre o que ainda tenho e o que perdi, no ponto exato onde a esperança delibera e o destino saúda: a morada do tempo novo.
Se me pedem uma definição, sou o culpado.
Se me pedem uma explicação, o silêncio será minha única oferta.
Sou uma gota de orvalho prestes a evaporar ao primeiro sopro da alvorada.
Meu caminho agora é uma subida íngreme, e cada passo é um suspiro que minha alma exala, cobrindo-me com os últimos fios da honra que me resta.
Minha alma está exausta, mas meu espírito, incandescente.
Assombrado pelo destino, pinto em meu rosto o esboço de uma alegria antiga, quase esquecida.
Se o lavo, restam as manchas que viraram cicatrizes.
Aqui estou, gemendo pelo que virá, amparado não pela força que já não possuo, mas pela brisa suave da esperança, um abraço tecido em gratidão.
A quem legarei meus desejos?
A quem confiarei meus pensamentos?
A quem doarei o meu amor?
Que me pesem os fantasmas, mas quem em meus braços se deitou, minha herança há de ser.
Que minhas palavras se espalhem como sementes, para que eu não seja o egoísta que as guarda para poucos.
O medo, contudo, acorrenta minha mente, pois não sei se estas palavras, nascidas na tristeza do meu fim, ferirão aqueles que ainda têm o tempo que a mim foi negado.
No horizonte, minha cruz se desenha.
Sou eu o joelho que se dobra em reverência ou sou ainda um começo, enrugando a fronte com o medo de uma nova realidade?
Se o destino deseja me velar com o manto da ignorância, eu o cobrirei com as almas que consolei, os sonhos que protegi, as angústias que desfiz e as alegrias eternas que jurei defender e doar.
Compreendo, então, que "ser ou não ser" nunca foi a questão.
É uma lógica da alma.
Aquilo que me desfaz não pode apagar o que por anos guardei, beijei e protegi sob meus pés, calçados com a honra e a gratidão por aqueles que amei e com quem vivi.
Que o não ser se anuncie; seu tom já não me é estranho. Tenho meu riso para lhe oferecer, pois entre a cruz e a espada, há sempre um céu que acolhe.
Inexistência, você não passa de um eco, abandonado pelo sonho de persistir, nessa minha mente que testemunhou sua falsidade.
Sua pergunta se dissolve na minha escolha de não mais duvidar.
Ser ou não ser é, enfim, minha justiça — o ato de devorar meus medos e entoar a canção da esperança, que ainda aquece meu leito de descanso.
Ser ou não ser é a libertação dos desejos sobre as minhas ideias oprimidas.
"Ser ou não ser não é dúvida, é a coragem de existir e a esperança de permanecer."
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