Deus, esse nome traído

Poema 70 de 73
Deus, esse nome traído

Os homens andaram pela história vestindo roupas de todas as cores, com todas as suas expressões de valor que lhes permitiram, criando deuses pela paixão dos seus sonhos e desejos, mas poucas vezes acreditaram que eles mesmos são os deuses, e o que ficou em falta foram os sentimentos de gratidão e solidariedade para com o próximo.

São deuses da história, mas nunca foram deuses para a história.

Por Ele rezaram com as preces da falsidade, apenas para ter o direito de vestir a fantasia do engano e usar o perfume dos afortunados — pelo privilégio das exceções.

Esconderam o ouro roubado sob o sofrimento da escravidão do semelhante e mascararam a embriaguez dos desejos com o sacrifício do irmão abandonado.

Por Ele, o nome dos aflitos é lembrado por uma falsa verdade da existência para alimentar — sem gratidão — a vaidade do vício, que só a eles pertence.

Por Ele mentiram verdades para ocultar o princípio da justiça.

E, para que não fossem atormentados por suas próprias decisões — sujas de mentiras —, doaram seus risos e seu ouro aos vermes de sua ganância.

Por Ele gritaram, tentando esconder a farsa: a fantasia de um falso belo que o tempo apodreceu, sentada no trono manchado de enxofre e lodo.

Aqui, o grito da vitória da hipocrisia foi ouvido.

Por Ele adoraram o dia e zombaram da noite.

O homem trai o seu Deus ao menor esforço de sua necessidade.

É um Deus que esqueceram, por arrogância — e agora suas almas cabem na própria boca, exalando o cheiro da amargura e da fúria.

É um Deus que nunca viveu na mente do tirano — e essa foi a Sua vontade: que essa ausência fosse perpétua.

Esses homens de quem falo precisam da calúnia para fazer rezar e chorar os fracos de ideias que o mundo castigou, tirando-lhes o direito da decência.

Esses homens esmagam o semelhante ao menor esforço, para colorir desejos próprios que jamais se saciam.

Esses homens abandonam o próximo ao primeiro sinal do desejo — sobretudo aquele que, por necessidade, implora e chora.

Aqui, o prazer é maior: um destino que se curva à maldade.

Existem seis classes de homens que vivem neste mundo retorcido de pequenas esperanças e esvaziado de sonhos:

Primeiro: os que nunca souberam fazer, pela ausência de uma chance.

O suor do sofrimento que escorre pela face é sua glória de dor — e o direito de ter um pouco do que foi esquecido é uma ilusão.

São deles, às vezes, as migalhas que o tempo deserdou.

Aqui, a fome trai o pensamento, o riso alimenta uma esperança, e o medo encolhe a alma para lembrá-los de que nada jamais virá.

Homens que Deus esqueceu.

Segundo: os que pouco sabem fazer e pouco fazem por preguiça.

Usam, por princípio, o direito da esmola.

É uma parcela de homens que ao lixo também serve — e, para eles, isso basta.

É o presente da sobra oferecida.

Por esses, Deus não esqueceu: simplesmente desprezou.

Terceiro: os que fazem tudo, a toda hora, e jamais se cansam — mas não controlam o que deve ser feito com o que fazem.

São a escora da humanidade, cujos ombros de dor se contorcem.

Vivem no intenso dever de produzir, e sua servidão tem tempo marcado: quando as forças do trabalho faltarem, serão desprezados pela ineficiência da produção.

Por esses, Deus orou e prometeu.

Quarto: os que mandam fazer, mas nada fazem.

Usam o vício como direito e o direito como vaidade.

Suas aflições nascem da ganância, jamais da necessidade.

Por esses, Deus chorou de tristeza.

Quinto: os que, protegidos por uma falsa glória, têm o direito de mandar naqueles que mandam fazer — e de determinar o quanto deve ser feito.

Aqui vegetam todos os males que a natureza humana permite, por homens que só a morte respeita.

Usam e vendem entre si, num ciclo de poder.

São estrelas que brilham pelo calor do fogo, jamais pela caridade.

Suas ideias valem apenas pela sombra de sua ilusão, comprometida pela negação da existência do próximo.

Por esses, Deus se arrependeu de tê-los feito.

Sexto: os últimos — os que jamais ajoelham.

Os que determinam tudo: quem manda mandar, quem manda fazer, o quanto e o quando deve ser feito.

Escondem suas existências para jamais serem julgados por seus pecados.

São monstros que nunca chorarão, nunca pedirão perdão.

Representam os demônios que o submundo protege.

Têm sempre o direito de usar — ou não —, jamais doar.

Pertencem à esfera que guarda essa estirpe de homens que oram pelo fracasso de todos, pedindo para que a necessidade jamais se encerre.

Escondem-se no orgasmo da infertilidade e vivem na sombra do jardim das cruzes.

Esses são os chamados inimigos de Deus.

Assim caminhamos todos nós, nesse caldo amargo de fome, desespero e desesperança.

É no sentimento da dúvida e das perdas que o medo do sofrimento castiga a alma — e na esperança de um sonho que nunca vem.

Na base dessa pirâmide — entre mentiras, sonhos, decepções, fome e desespero —, as almas dos miseráveis choram e gritam: a eterna angústia do esquecimento.

Ao meio seguem os covardes que, pelo medo de sofrer, aceitaram impor o castigo dos maiores aos menores que o destino, sem razão, criou.

No alto estão aqueles com quem a maldade flertou.

Vivem entre as nuvens e jamais ouviram o grito dos aflitos.

Seus olhos olham somente para si próprios — são desprovidos de consciência, com o olhar tingido de sangue.

Eu, pelo sentimento que me queima o desejo de justiça, grito ao meu modo e peço: pelos meus desejos, acunhei, de tristeza, minha alma com o coração partido — mas agora, com as palavras que o coração grita, não mais me sinto partido.

Demonstrar meu desprezo é o dever que resta às palavras que jorram da mente — mente que não se cansará de gritar, por ainda não ter sido de todo ouvida.

Pelo desejo, protejo meu coração e, com a suavidade da minha essência, confesso: há dor, mas há fé; há revolta, mas há lucidez.

E ainda assim, no silêncio dos humildes, Deus permanece. Não nos altares dourados, mas nas lágrimas dos esquecidos, nos gestos de bondade que sobrevivem à verdade. É ali que a esperança se renova, e é dali que virá a cura: não pela força dos poderosos, mas pela piedade de uma alma justa que, um dia, se levantará para todos nós.

E isso é tudo.

Porque, um dia, uma alma — por piedade — há de se curvar e curar a todos nós.

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