Penso, logo não existo!

Poema 69 de 73
Penso, logo não existo!

Peço perdão por negar uma verdade estabelecida.

Esta é apenas uma suposição temporária, um exercício de pensamento. Pois o tempo, em seu mistério, não permite que sua morada seja visitada por uma alma vestida de existência e pensamento.

Buscarei no íntimo de minha alma, na magia de meus sentimentos, uma chance de encarar o tempo com a consciência despida de minha própria existência. Não sei se é possível. Talvez assim eu consiga, com a mais delicada de minhas percepções, forjar uma lógica para explicar ao juízo da minha momentânea inexistência a natureza do tempo.

Qual é o significado do tempo em minha consciência?

Creio que apenas negando a mim mesmo posso compreender como ele se sustenta, marcando com sua vontade tudo que existe.

Eu, mortal, diante do Imortal, necessito de tua anuência. Preciso que me compreendas, para que eu — com o espírito já ausente da vida — possa enfim compreender e julgar tuas razões."

Neste momento, por decisão de minha alma, abandonei temporariamente minha existência para esta tarefa.

Nesta inversão da lógica, também posso ser julgado pelo tempo. Minhas escolhas, nascidas de minhas percepções, podem ser aceitas ou negadas por seu gesto.

Devo permitir seu direito de me julgar, para que nossa relação seja uma verdade, definida pelos princípios do pensamento e da natureza.

Sugeri ao tempo que se ausentasse. "Impossível", ele respondeu. Questionei se o motivo era o medo. Silêncio foi a resposta.

Na máxima da reflexão, "penso, logo existo", farei uma substituição experimental: "penso, logo não existo". E para que a dúvida não desfaça este absurdo temporário, deixo um lembrete para minha futura consciência: "penso, logo existo".

Seguirei por esta verdade provisória, me ausentando dessa minha percepção da vida. Com este raciocínio ilógico, entendo a tese que devo usar: afastar-me do sentimento da vida, temporariamente, perante o tempo.

Minha necessidade é criar uma lógica para este pensamento não existencial, um significado que justifique e esclareça meu experimento.

Para isso, substituirei a consciência comum pela consciência sublimada. Talvez neste estado eu seja aceito. Aqui reside a chave que torna tudo possível.

Adormecerei neste exercício fugaz de consciência sublimada, camuflada pela elegância do sonho. Ocultarei tudo que expõe minha presença, deixando apenas a mente clara para perceber os movimentos deste senhor chamado tempo.

É preciso ter paciência, uma necessidade ímpar, guiada pela cegueira na ausência de luz, no profundo espaço da natureza.

Chegarei lá, por insistência.

Agora, encontro-me preso sem amarras.

Olhos que não veem a luz. Um silêncio que fere os ouvidos com desesperança. Minhas palavras e atos não encontram eco; apenas minha mente responde, confortando-me com o direito de ainda perceber minha própria vida. Isso é a consciência sublimada.

E assim, confio.

Aqui, tudo é sempre o próprio.

A igualdade absoluta me impede de perceber ou medir o tempo.

A monotonia do absoluto se revela, e por uma miragem, o momento se torna fantástico.

Assombra-me a simplicidade com que tudo é possível.

Por minha decisão, neste esconderijo da alma regido pelo sonho, o tempo me alcançou.

Sou obrigado a entender: agora, penso e não existo.

Aqui o sonho debruçou suas vestes nos olhos do sonhador.

E, pela veste da transparência, o tempo surge nu, seu semblante ri desprotegido de sua vergonha. Uma beleza que se consome no espaço.

A expressão de sua existência se expõe em todos os detalhes para mim. Estou aqui para compreender.

Não é um fato próprio, é a expressão do desejo, vestido de sombras da ilusão.

Ninguém pode opor-se a que eu sonhe; se o faço, faço pelo desejo de criar o que o meu próprio destino um dia me permitiu.

Ele possui o olhar mágico da permanência, uma constância de movimentos nascida da ausência de aflição. Uma atitude inflexível que nega a desordem e o passado, mas que se mantém atenta a um único sinal que pode atormentá-lo.

Não sei qual é. Não consigo percebê-lo em sua plenitude; sua ternura é única.

Mesmo sem saber o que dizer, percebo que algo o torna contemplativo. Isso o trai e o preocupa, dando-me a chance de conhecê-lo melhor. Não posso questionar; sou apenas um observador. Mesmo assim, devo ficar atento.

Vou desvendar o segredo que sutilmente altera a percepção que o tempo tem de sua própria existência.

Seriam seus pecados?

Sua ausência de arrependimento pelas permissões que deu?

Ou o conhecimento de uma cruz, um futuro ajuste de contas?

Não sou um infiel, mas minha sede de conhecimento me compele a ler as linhas secretas guardadas na manta do tempo. Preciso encontrar o que escapa ao seu controle e à minha percepção inicial. Vou atentar a tudo.

A verdade não é imediata, mas com cuidado, percebo: o tempo está protegido por uma única ação que lhe garante o direito de existir: o movimento.

Negar o movimento é negar a existência. Negar a existência é criar a ausência. Negar a ausência é negar o tempo. Negar o tempo é negar a energia de tudo que existe.

Por raciocínio lógico, entendo que, sem movimento, o tempo se perde e o espaço se desfaz. Debruçado sobre o enigma, percebo: sem movimento, não há tempo; sem tempo, não há espaço; e sem espaço, não existe nada.

Resta apenas a origem. Tudo que sobrou obedece ao dedo indicador da criação, que, com um simples toque mágico, permite que tudo se repita. Tudo se torna um só ponto, guardando a existência inteira e congelando o primeiro e o último tempo, que resistiram a este fenômeno contrátil chamado "o espaço mínimo que o consentimento permite".

Sendo assim, percebo que o tempo é apenas um desejo outorgado pelo espaço, que lhe deu o direito de transportar, nos limites de sua concessão, o prazo de sua própria existência.

Agora sim, passo a crer: o senhor absoluto das coisas não é o tempo, mas o enigma do espaço, que a natureza criou, no exercício de sua existência.

Acordei do meu sonho.

A consciência regente agora me veste.

Tempo, você é apenas o símbolo dos movimentos.

Uma permissão que o espaço, por gratidão, concedeu a você e a tudo que existe.

Não consinto a outrem o direito da atribuição da natureza, mas sim à prima facie do criador, que, por paixão e gratidão, enviou flores às suas criações, que, por paixão e por delírio, permitiu pensar, logo existir.

E eu, que um dia, pela lógica que a razão me impôs, o coloquei no pedestal de Atlas, hoje, agradecido à minha consciência sublimada, na expressão máxima da minha razão, atribuo ao espaço a coroa da criação.

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