Uma possível incerteza da Razão pura

Desculpem-me por negar uma verdade; é somente uma suposição temporária para o exercício de um pensamento que o tempo, por mistério da sua existência, não permite que sua morada seja visitada com a presença da existência.
Vou procurar no mais íntimo dos meus pensamentos, no sentimento mágico da minha alma, que me dê a chance de olhar o tempo pela consciência desnuda da minha inexistência.
Nesse momento, talvez eu consiga imaginar, usando a mais sensível das minhas percepções, uma lógica para entender e explicar ao juízo da minha existência esse contexto, sendo o significado do tempo na minha consciência.
Acredito que só assim posso compreender como ele se sustenta nas lógicas da sua existência, que marca, pelo entendimento da sua vontade, tudo que existe, até o momento em que tudo não mais existe.
Sendo eu mortal e agora estando face ao imortal tempo, preciso ter a sua concessão e a sua compreensão para que eu possa, com o meu estado de espírito modificado, ausente da expressão da existência, fazer o julgamento de suas razões, que eu, por decisão do espírito, tive o dever de abandonar.
No inverso da razão deste momento, eu também posso ser julgado pelo tempo e pelas escolhas que fiz, sendo as minhas percepções do momento.
Preciso permitir que a sua imposição seja o seu direito de me julgar para que a minha relação seja, de fato, uma verdade considerada e definida pelos bons princípios do pensamento das ideias do universo.
Sugeri ao tempo sua ausência.
Respondeu-me ser impossível.
Questionei se o motivo era o sentido do medo.
Nada escutei.
Na máxima da reflexão que já foi dita e conhecida como verdade única, que "penso, logo existo", vou substitui-la pela minha expressão do experimento: "penso, logo não existo".
Para que a minha dúvida não se desfaça desse absurdo temporário, deixarei escrito para minha futura conscientização: "penso, logo existo".
Vou seguir por uma verdade provisória e vou me ausentar, por temporariedade própria, da ideia da percepção da vida.
Ao fazer este raciocínio ilógico, a princípio, irei entender que a tese que preciso usar, que me fará me ausentar, é, na realidade, me ausentar da percepção do sentimento da vida na sua presença, temporariamente.
As máximas das minhas necessidades são para criar uma lógica que imploro para que esse meu raciocínio, de lógica não existencial, tenha um significado para o meu entendimento ter justificativa, para dar clareza ao meu experimento.
Para tal fato, irei substituir a ausência da consciência pela consciência sublimada. Aqui está a razão para que tudo seja possível.
Vou adormecer pelo fugitivo exercício da minha consciência sublimada, que será camuflada pela elegância do espírito do sonho.
Vou camuflar tudo que expõe minha presença e deixar somente a mente clara para que eu possa perceber os movimentos desse senhor chamado tempo.
Há que ter a paciência e o sentido de uma necessidade ímpar, regido pela cegueira da ausência da luz no profundo espaço do universo existencial.
Chegarei lá por insistência dos meus objetivos.
Agora me encontro preso sem amarras, olhos sem percepção da luz, um silêncio que fere os ouvidos no desespero de ter algo que possa ser percebido, mas nada é percebido. Ausência da percepção.
Minhas falas e meus atos nada correspondem; só minha mente me responde e me dá, para o meu conforto, o direito de perceber a existência da vida. Assim, fico confiante.
Aqui, tudo é igual a qualquer momento, pelo tempo que a igualdade absoluta não mais me faz perceber ou mesmo exigir.
A monotonia do absoluto, na sua dimensão própria de sua existência, me foi conhecida e, por paixão, digo ser fantástico o momento: espanta-me, pela simplicidade, como tudo é possível.
Por minha decisão, nesse esconderijo da alma, regido pelo sonho da consciência sublimada, o tempo me alcançou. Sou obrigado a entender que agora, devido às circunstâncias, penso e não existo.
Todos os afrodisíacos do pecado foram desfeitos; agora, pela camuflada veste da transparência, surge nu o tempo, desprotegido do semblante da sua face, agora também nua.
Agora, a expressão da sua existência para as minhas percepções se expõe com todos os detalhes de sua existência.
Estou aqui para decifrar.
Ele tem o olhar da mágica da permanência, a constância nos movimentos permitidos pela sua ausência de aflição, atitude inflexível do pensamento da negação da desordem e do passado, porém atento a um sinal da única coisa que pode atormentá-lo.
Não consigo percebê-lo na sua plenitude; sua simplicidade é única.
Ainda não sei o que dizer ou do que se trata.
Percebo, assim mesmo, que algo o faz ser pensativo, e isso o trai e o preocupa ocasionalmente, dando-me a chance de conhecê-lo melhor.
Não posso questionar nada; ali estou somente como um observador das coisas do tempo. Mesmo assim, é bom ficar atento.
Vou entender o segredo escondido que faz o tempo mudar sua percepção sutilmente quando necessário.
Seriam seus pecados, sua ausência de arrependimento ou por ser conhecedor de uma cruz que um dia há de ser confrontada para um ajuste de contas?
Não sou, por costume, um traidor, mas, pela minha necessidade do conhecimento, preciso ler as linhas escritas do segredo guardado.
Preciso conhecer algo que foge do controle do tempo e da minha percepção primeira, dando-me a chance de conhecê-lo melhor, o seu segredo tão guardado. Vou atentar a tudo que eu posso perceber.
Não percebo essa verdade de imediato, mas, com o devido cuidado, acredito que o produto denominado tempo está protegido por uma única ação, que me faz ter o direito de duvidar da sua existência: o movimento.
Negar o movimento é o mesmo que negar a existência. Negar a existência é o mesmo que criar a ausência. Negar a ausência é o mesmo que negar o tempo. Negar o tempo é negar a existência de energia de tudo que existe.
Por raciocínio lógico, acredito que, pela falta do movimento, perde-se o tempo e o espaço se desfaz.
Agora, confiando na minha lógica, debruçado sobre o enigma da minha existência, começo a perceber que, sem o movimento, não existe o tempo; sem o tempo, não existe o espaço; e sem o espaço, não existe o nada — somente a origem de tudo que restou foi pela obediência ao dedo indicador da criação, consentida pela mágica do simples toque para que tudo se repita.
Agora, tudo se torna um só ponto, guardando toda a existência e congelando o primeiro e o último tempo que sobreviveu a esse fenômeno que se encolheu, chamado o espaço do mínimo que o consentimento permite.
Em assim sendo, percebo ser o tempo somente um desejo que o espaço concedeu, dando a ele o direito de conduzir, por limite de sua concessão, o prazo de sua existência.
Agora sim, passo a crer que o senhor absoluto das coisas não é mais o tempo, e sim o enigma do espaço.
Despertei do meu sonho; minha consciência consentida agora me vestiu.
Tempo, você é somente o símbolo dos meus movimentos, as permissões que o espaço, pela gentileza da gratidão, te concedeu e a mim permitiu para a existência da vida.
E eu, que um dia, por raciocínio da lógica, te coloquei no pedestal de Atlas, hoje, agradecido pela minha consciência sublimada, eu, aqui me manifesto, na expressão máxima da minha razão, a atribuir o espaço o dono da coroa da criação.
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