O Retrato

Poema 64 de 73
O Retrato

Título: "O Retrato"

Sou os que me amam e me veem, mas nem sempre vejo; os que me suportam e pedem são os que sigo e enxergo.

Sou, por vezes, uma imagem espelhada dos meus momentos difíceis, castigada pela minha alma, para que eu suporte a dor dos meus erros.

Sou as minhas ideias, queimadas pelas minhas loucuras, que deixo cravadas no chão, para que o tempo, com paciência, as apague por inteiro.

Sou quem tem o dom de usar uma máscara que me disfarça; se preciso for, sou quem tem os longos dedos que alisam meus pensamentos; se preciso for, sou quem tem os pés enormes que me guiam no meu caminho; se preciso for, sou quem tem os olhos de corvo para saber onde estou e para onde vou.

Sou uma história de solidão que não cansa de dançar junto aos respingos dos primeiros raios do sol, que se espalham suavemente pela relva e junto aos meus pés, que se assentam e me aquecem.

Sou um vento cuidadosamente espalhado pelo espaço, que o sol aqueceu e entregou à natureza, para que minha espécie, ainda adormecida, flutuasse nessa magia chamada tempo.

São os olhos cansados que me escondem dos meus desejos, que minha consciência insiste em ver e depois doar para que eu alcance apenas a existência do nada.

Sou quem escolhe doar sem precisar pedir.

Sou a alma que escuta o canto no recanto onde o corpo chora.

Sou a vontade do encontro entre o direito e o dever, vestida com o caráter da bravura e da honra.

Sou o encontro de mim mesmo com os meus sonhos, tentando fugir dos dias que sinto serem longos e descalços de ideias.

Sou a ilusão de um retrato que a vida me prometeu, para garantir o direito aos meus risos e às minhas lágrimas, que serão doados àqueles que, um dia, por medo, enganei.

Sou um pecado que a natureza esconde e guarda, para que o tempo possa usar como espelho do exemplo da negação e da mentira.

Sou aquele que tem a essência da alegria e da verdade, que me implora a todo momento, para que eu possa dar aos meus a chance de conhecer o perdão e a gratidão.

Sou ora sim, ora não, a escolha decifrada pelo talismã que recebi da minha vida, escrito com as letras que pintei ao acordar das manhãs das minhas alegrias. Elas foram roubadas pelo tempo da bondade, festejam minhas histórias para aqueles que me solicitaram.

Sou o entendimento entre minha alma e minha consciência, que me completa nesta magia que é a vida perdoada e amada.

Sou uma vontade que o tempo insiste em me fazer desistir, mas esquece que meus instintos são guiados pela coragem das minhas obrigações e desejos.

Sou alguém para procurar, mas também para ser achado; e, achado, sou para ser guardado.

Sou um todo, mas espero que teu desejo não seja roubar minhas orações, que, por medo, guardo na gaveta oculta da minha alma, que, agradecida, sempre me faz sorrir.

Sou uma teimosia que me carrega, sem piedade, para o espírito do engano e da sombra, para que o futuro não perceba minhas ilusões e vontades.

Sou um achado que se perdeu na esfera de uma consciência, marcada pela falta de coragem neste mundo de desordem.

Sou o que devo ser para colorir os amores do dia que se abre e perfumar as noites que se fecham.

Sou um encontro de uma relva lisa e macia que encosta e dorme nas raízes largas de uma amendoeira.

Sou o destino inquieto que me esconde para lembrar-me de que os risos não são só teus, mas também meus.

Sou uma fumaça sem cheiro que o vento castigou e desfez para proteger-me das perseguições e das anarquias.

Sou aquele que sentiu o desespero do amigo, o cochicho da brincadeira e o grito da perseguição.

Sou um mágico que encanta quem me encanta.

Sou um gênio que ri das minhas loucuras, dançando em minha mente como lobos numa floresta de pinheiros.

Sou um tolo que desperta minha consciência para rir das minhas alegrias, que brilham como luzes do arco-íris.

Sou alguém que ora pelo sol, para que minha mente não se escureça e apague meus sonhos.

Sou o fim que sorri para agradecer minha jornada, que muito me ofertou e pouco me tirou.

Sou, fui e serei o que pede perdão e que perdoa, perdoou e perdoará, se assim for para a alegria da vida.

Enfim, sou muitos, mas a voz que minha consciência exala é uma só.

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