As Desigualdades do Ser

Poema 63 de 73
As Desigualdades do Ser

Título: "As Desigualdades do Ser"

Meus pensamentos, sempre tristes.

Tudo nasce e vive na desigualdade, e morre na igualdade.

Somos eternamente diferentes na luta pela igualdade.

Fingimos amar com paixão nossas ideias distintas e, sem noção da realidade, escondemos nossos desejos iguais.

Somos a desigualdade exposta, a tradução livre do NÃO que carrega o SIM por compaixão, no caminho de uma necessidade desnecessária.

Somos o que deveríamos chamar de uma verdade delicada que, ao render-se à vaidade, anula-se na fantasia da mentira.

Somos o que deveríamos ser: um medo a ser notado pelo contrário, uma falsa alegria que precisa ser vista pela necessidade de estar sempre presente.

Somos o oposto do desejo, retratado na inversão da realidade, neste espelho da consciência que nunca esconde o valor de nossas verdades.

Somos a deficiência do tempo, que o destino, sem aviso, projetou nas linhas da desordem, para depois criar a ilusão da beleza do paralelismo dos iguais.

Somos o produto que se consome pelos anos, para um dia voltar à unidade do primeiro princípio.

Somos um falso riso disfarçado no espírito da mentira, que nem a sombra oculta seu perfume.

Somos a imaginação em forma de poeira, que o vento castigou e, sem piedade, escolheu um ingrato rumo para sua própria anarquia.

Somos uma fantasia rasgada e descolorida, que o tempo usou sem piedade nem direito, para nos mostrar que o resto que nos falta é uma pequena parcela do nada.

Somos a pobreza de nós mesmos, alargada em nossa consciência pelo princípio da imaginação de nossa desordem, criada no leito de nossos pecados e alimentada pela fome de nossas angústias.

Não acredito no ser humano.

Não acredito no que ele pode fazer.

Não acredito que ele possa não querer fazer.

Só acredito no ser humano que reza.

Só acredito no ser humano que chora.

Só acredito no ser humano que acredita no outro.

Na verdade, poderíamos ser melhores.

Temos o privilégio de ter, mas não sabemos dividir.

Temos o direito de ser, mas não sabemos oferecer.

Temos o direito de viver, mas não sabemos gravar nossas lembranças no leito de nosso caminho.

Mesmo assim, somos o inverso do belo, retratado pelas mãos enganosas da vaidade, que cobriu com cera nossa face com medo e angústia.

Somos uma ideia que a maravilha do tempo esqueceu de construir por completo, entregando apenas as primeiras provas, retocadas por pequenas pinceladas de distração e anarquia.

Somos o vento que, por ocasião, nos alegra e entristece no mesmo momento.

Somos o que não deveríamos ser e, sendo, não merecemos ser.

Por isso, os que fugiram dessa regra foram esquecidos pela falta de necessidade.

Os que não fugiram foram infernizados pela vaidade e pela ganância.

Os que restaram, nem o tempo os quis.

Não há como nos abençoar: nossos pecados foram escritos na alma.

Para apagá-los, seria preciso fazer desaparecer essa mesma alma.

O que pode ser feito: ser honesto com os valores de nossas almas, ser honesto com os amores de nossos sonhos, ser honesto com nossos iguais.

Enquanto isso, só podemos esperar e pedir.

Que a igualdade tenha seu direito pelo seu valor, neste tempo de angústia e desesperança.

Desigualdade é o espírito inquieto da igualdade, que não soube compreender o princípio primeiro da igualdade.

Igualdade é a voz da esperança, que nos alcançará e, por bondade, nos indicará o caminho da decência.

E quando a igualdade finalmente se revelar, não será pela força, mas pela bondade.

Será o instante em que o ser humano reconhecerá que sua maior riqueza não está em possuir, mas em dividir; não em ser, mas em oferecer.

Nesse momento, a desigualdade deixará de ser ferida e se tornará memória de um tempo que precisou existir para que aprendêssemos a ser melhores.

Compartilhar este poema

Avalie este poema

Comentários dos Leitores

Seja o primeiro a compartilhar suas reflexões sobre este poema.