O Preço da Existência

O sol fantasiou o chão com seus raios em leque, que, pela beleza da luz, expõem as folhas amareladas espalhadas, gentilmente molhadas pelo orvalho da noite que se foi, permitindo-me seguir meu caminho.
Sobre meu corpo, o frio ainda se deitava, sem desatino, mas perceptível. Encolhido, defendia-me com o pouco que restava das minhas vestes.
A ilusão da noite deixara-me confuso, com percepções desatinadas e medíocres, assustadas pela falta de compreensão que o sono me provocara.
Permanecia quieto, à espera de um sinal de luz vindo da minha consciência.
Minha visão, distorcida da realidade, roubava-me a clareza das formas e a definição das cores, mal alinhadas em sua composição.
O cheiro era sutil, agradava-me, trazia uma aura de esperança. Confisquei meus pensamentos para tentar sustentar-me e olhei lentamente para a natureza que, florida em etapas do tempo, seguia seu rumo.
Sem certezas — eu, nem tanto assim, supunha.
Pedras soltas, poucas, coloriam o tapete ao meu redor.
A relva misturava-se aos galhos secos, e suas folhas desfaziam-se ao menor toque.
Era um leito que a natureza gentilmente cedia. Estava só, mas não percebia essa solidão.
Um pequeno lago, próximo, de águas quietas, deixava escapar uma névoa esbranquiçada, sem cheiro, mas que, por encanto, carregava uma melódica ternura de prazer.
Sombras isoladas cobriam-me.
Um aroma de alecrim pronunciava seus desejos. Meus olhos, agora abertos, davam-me liberdade para compreender melhor tudo ao redor.
Formigas em fila entretinham-se e cumprimentavam-se, inquietas. Ao alto, por vezes, pássaros saltavam de galho em galho, com alegria.
Galhos quietos, bem sustentados, eu percebia.
Borboletas, não muito distantes da minha visão, adocicavam meus pensamentos com o prazer explícito de vê-las flutuar.
Com tamanha alegria, eu sorria.
A natureza mostrava-se confortável e segura de si. Agradeci-lhe o conforto de suas dádivas. Vou caminhar ao longo do dia.
Que seja descalço, sem pressa.
Que seja sem tropeços, seguindo a trilha da alma, no caminho do sol.
Não sei onde estou.
O sopro do vento é calmo, sem exigências.
O calor ainda mal se levantou.
O sol não queimava; apenas sugeria sua presença.
Resmungo para mim mesmo, pois o significado do momento me escapa.
Esqueço que minha alma não estava perdida — talvez apenas fugisse. Meus costumes trazem-me calma.
Os braços que não me abraçam também não me empurram.
É preciso tingir o medo com verdades e esquecer as armadilhas que, porventura, me caçam.
Estou preso com os braços abertos. Escondido, sem muros. Sou prisioneiro de mim mesmo.
A memória desfalece quando os desejos enfraquecem. O medo instala-se quando já não sabes quem és.
Não resmungue ao andar — cante.
Não reclames da dor — sorria.
Desafia tua insistência — prossegue.
Não pares pelo cansaço — ergue-te. Alonga teus passos.
Morde tua vontade. Espera terminar o que escolheste; então, descansa tua alma.
Abandono meu leito de folhas.
Sigo, orientado pelo sol nascente.
Preciso recuperar o tempo perdido.
Sou um andarilho do tempo, onde os desejos se escrevem nas cores do horizonte.
O tempo é mágico; ele me fará lembrar o porquê do meu caminho. Onde os pés pisam, minha história se escreve.
O calor chega.
Uma sede engole minha língua.
Meus pés descalços suplicam por proteção.
Meus pesadelos já têm rosto — e encaram-me.
Agora, o sol coroa minha cabeça.
Sigo sem rumo. Nada me faz companhia.
Sou um vexame da minha própria natureza. Mas não sou fraco.
A dor, outrora ausente, agora espalha-se por todos os lados. Sua preguiça em me abandonar vai longe.
Horas se foram. Longos passos foram dados. Curtos passos também.
Suor escorreu. Pés maltratados gritaram. Ombros caídos foram sacudidos.
Sigo em frente. A ordem é essa.
Muitas horas depois — sede, suor, lágrimas e tristeza...
O sol apronta-se para deitar-se. Eu também.
Foi difícil para nós dois. Ele tem para onde ir. Eu... não sei.
Antes que a luz se vá, minha consciência reconhece: o tempo que passou foi gigante. Por piedade e encanto, encontro um recanto para descanso.
Ajeito-me e deixo que meus sentidos me protejam. Fecho os olhos — e descubro-me do dia, enquanto a noite me cobre.
Horas se passaram.
Sonhos confusos vieram — e foram-se. Estrelas brilharam — e despencaram. A ternura do ar sereno deu-me repouso e conforto.
O sol novamente fantasiou o chão com seus raios em leque, que, pela beleza da luz, expõem as folhas amareladas espalhadas, gentilmente molhadas pelo orvalho da noite que se foi.
E quando o tempo nos devolver ao silêncio da noite, que nossas memórias sejam como folhas amareladas espalhadas pelo chão: frágeis, mas belas, testemunhas de que caminhamos.
Pois existir é deixar marcas, e o preço da existência é, no fim, o valor daquilo que ousamos sentir.
Assim serei — pelos próximos milênios.
Compartilhar este poema
Avalie este poema
Seja o primeiro a compartilhar suas reflexões sobre este poema.