As Fantasias do Pensamento

Aceitei a fantasia do perdão, cuja expressão da alma, marcada pelas lembranças da minha consciência que chora pela saudade — castigo dos meus erros não perdoados —, colocou-me no leito dolorido do desgosto.
Aceitei a fantasia do pecado, escrita no livro do tempo, que me faz ser conhecido por inteiro e esquecer as perguntas que minhas dúvidas, livres das lembranças, fizeram-me curvar às mãos do destino, que, por piedade, não me abandonaram.
Aceitei a fantasia da consciência, que não me responde sem aflição às perguntas que me faz com dúvidas.
Aceitei a fantasia da justiça, que não me solicita a verdade que, por direito, não mereço.
Aceitei a fantasia do destino, que não me questiona o que, por direito, não posso ser, mas que, por vontade, posso sentir.
Carrego minhas fantasias como galhos secos e retorcidos no tempo, que, como eu, marcaram meus pecados, prendendo as curvas da vida nas falsas virtudes das minhas escolhas erradas, cobertas pelas relvas molhadas das manhãs de primavera.
Carrego na memória as fantasias das águas turvas e frias, que gelaram meus pensamentos e fugiram dos abraços de uma saudade que, ontem, por desespero, arrematou os medos dos meus desejos e colocou-me no pórtico das minhas dúvidas.
Não há como duvidar: a fantasia é a visão das verdades que se escondem nas sombras das mentiras.
Há um medo de que minha alma perca as folhas, agora secas, da minha pele, que me protegem e sustentam as fantasias que carrego neste tempo de agonias e desejos.
Se eu perder minhas fantasias por inteiro, serei um eterno desprotegido das minhas memórias e dos encantos que guardei junto aos meus olhos, que, por delicadeza e censura, adormeceram-me neste paraíso chamado sonho.
Que fantasias me fazem chorar, se não sofro pelo que o coração abraçou e que a face do medo, por agonia, deixou-me no abismo da solidão?
Que fantasias me fazem viver nas sombras da infância, dos pecados suspensos pelas mãos do anjo que me guarda e, por direito, me segue e sustenta na eterna história de mim mesmo?
Que fantasias me fazem sonhar, se, para sonhar, é preciso fugir da realidade, onde estão presas as fantasias que me fazem sonhar?
Se não sou escravo das fantasias, sou, contudo, hospedeiro de suas alegorias, que, brilhando em cores, escondem minhas fraquezas e meus instintos mais miseráveis.
Teria eu aceitado a fantasia do herói que um dia me salvaria deste caos, com traços de um semblante heroico, que jura ter vivido um tempo de ilusões e desejos não agradecidos, triunfando apenas em meus pobres pensamentos?
Confesso meus desejos, desfaço-me de minhas fantasias, sangro minha face com a vergonha que me leva ao carrossel do tempo perdido. Abraço as fantasias do destino para esconder parte da minha essência, que não soube decifrar e que, por castigo, me corrompeu.
Minhas fantasias foram minhas vestes; suas cores foram os tons das verdades que me fizeram brilhar.
Seus valores foram moedas de troca que a vida me cobrou. Sigo agora esculpido apenas pelo sangue.
Deixo as fantasias para quem a vida ainda quer brincar.
Deixo as fantasias para quem ainda deseja brincar com a vida.
Deixo as fantasias para os fantasmas que, acostumados, se fantasiaram na eternidade.
No eterno tempo de aprendiz, costurei fantasias com os panos que me jogaram no palco da vida que represento.
Acostumei-me a conhecer todos pelas cores que me ofereceram. Hoje, sem cor, carrego apenas memórias.
A vida fantasiou-me e eu, sem perceber, ignorei.
Que este perdão, que agora, de joelhos, insisto em solicitar, seja a última fantasia que minha alma vestirá na festa da eternidade.
E agora, ao despir-me das últimas cores, descubro que a ausência também é uma forma de presença. Pois o perdão que visto como última fantasia não é engano, mas libertação. Ele me transforma em silêncio, em memória, em essência pura — aquilo que permanece quando todas as fantasias se vão.
Assim penso: a arte da fantasia, imitando a glória da vida, é um pressuposto que, sem vida, é ter a arte de viver sem sua fantasia.
Assim penso: uma fantasia não se desfaz como um conceito de vida; surge como uma denominação comum entre tua vida e a arte da fantasia.
Assim penso: fantasiado de alegria, fantasio-te com a gentileza do obrigado, por tua vida.
Assim decido: aceitarei agora a última fantasia, aquela que me transforma na ausência.
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