Entre o Tempo e a Eternidade

Poema 58 de 73
Entre o Tempo e a Eternidade

Assim que a estrela maior despejou sobre meus olhos os primeiros raios do dia, eu, sem aflição, diante deste portão de ferro forjado, corroído pelos anos, gentilmente espero que se abra para o mundo da eternidade.

Para aqueles que solicitaram moradas, ele estará, ao final do dia, para sempre fechado.

O cadeado do tempo trancou-os.

O tempo perdeu o encanto; a eternidade abriu seus olhos.

Um anjo doce da saudade, com olhos de gratidão, ao pé do pórtico, estende a mão ao coração oferecido, num gesto de calma e bondade para os que entram pelo destino e lá permanecem, e para os que entram pela saudade e partem, pela graça da vida que agora termina.

Aqui cheguei, com saudade, sem atraso, sem pressa, livre da maldade, em busca das sombras que o tempo guardou, no costume da minha própria existência, protegido pela doçura que meus olhos ainda percebem.

Aqui, os olhos da realidade não podem ver seus encantos.

Agora, só a alma sente, por espanto, o novo momento: a eternidade. Ela agradece a beleza de um novo canto, que a alma escuta e a saudade encanta.

Aqui, o mundo perdeu os movimentos, mas acendeu, por inteiro, a chama da saudade e batizou o tempo com o nome eternidade.

Entendi, por escolha e com prazer, sem costume deliberado, esta morada, debruçada num tempo de harmonia fresca, saudada pelas sombras da manhã que a acolhem, silenciosas, por respeito. Aceitaram-me, com bondade, para uma permanência temporária, mas vigilante.

Atravessei o portão, aberto desde os primeiros raios do dia, como é de costume, do nascente ao poente.

A Estrela Sol marca, com sua luz ou sua ausência, os horários da visita permitida.

Caminho sem pressa por um trajeto escolhido apenas pelos olhos da curiosidade, com pausas ocasionais para ter o direito de saber e sonhar com o que vejo e sinto.

O que os olhos procuram, com capricho e fome de descobrir, engole-me de interesse: belos arranjos que o homem criou, para os amores que se foram e para os amores que ficaram.

Procuro não incomodar, ser razoável em minhas referências — entusiasmado em instantes, com dúvidas em outros, mas sempre preso às algemas do respeito e pelo princípio da criação.

A quietude deste lugar é fantástica. Nada pode mudá-la, exceto as mãos do destino, que o fazem sem consentimento, com o princípio da ternura.

É uma beleza que escapa ao meu espírito habitual, mas ainda assim me agrada — ora sim, ora não.

Os olhos veem o que o coração grita.

Não é lugar para chorar. É lugar para sentir o que o sentido, por descuido, não lembrou — se lembrou, não explicou.

Há um cheiro inquieto, que muda a cada instante.

São as preciosidades da relva, que se transformam a todo momento, em todos os tons, pelas mãos dos que vieram agradecer e despedir-se.

As cores das oferendas são delicadas, sustentando as preces gentilmente cedidas para suavizar o tom da partida.

Aqui, deu-se um beijo sem se beijar, um abraço sem se abraçar, um pedido sem se falar.

É o silêncio da agonia dos que ainda ficaram.

Há retratos da saudade, expostos com figuras angelicais — de maior ou menor esplendor —, deixados por aqueles que adoram e choram.

Talvez se perceba um gesto não de amor, mas de inocência, na esperança de que seus pecados tenham sido perdoados pelos encantos das imagens refinadas e ofertadas.

O chão é inquieto. Às vezes, requer atenção — não se pode pisar onde quiser, apenas onde é permitido.

Sem ofensas: o respeito implora e exige; esta casa ainda não te pertence.

A conversa com a consciência é mansa, sem sobressaltos. Não cativa, tampouco ofende.

A curiosidade está presente, mas sou irrelevante a ponto de seu valor ser questionado e, pela ausência deliberada de entendimento, inclino-me com o pensamento livre de atenção.

Sigo por pequenas retas, ora curvando à direita, ora à esquerda.

Em alguns momentos, oferecem-me bancos para que eu possa me sentar; aceito e descanso os pés.

Olho para o céu, mas não percebo sinal relevante — tudo se esconde onde os olhos não sabem encontrar.

Às vezes, minhas pegadas são seguidas; às vezes, sigo outras.

Nenhuma está marcada por querer; são passos da paciência.

Aqui, a solidão dita regras que precisam ser lembradas.

Meus companheiros de passeio têm semblantes distintos; suas histórias devem ser diferentes.

Mas todas respeitam este lugar chamado lembrança.

Às vezes, os olhos marejam; em outros, o sorriso escapa.

Aqui, onde nada se fala, tudo o que se ouve são palavras enterradas na alma, que florescem na mente dos espíritos que um dia amaram — e amados —, na esperança de um dia renascerem.

Neste chão, sem castigo, tive a chance de sentir o desejo de ver e ouvir o som da eternidade, o cheiro da verdade e o prazer de não sofrer.

Já é hora, vou-me embora.

O tempo também se despede.

Todos os que aqui ficam têm suas lembranças acesas pelas estrelas que, no céu, florescerão assim que o Senhor — estrela maior — deitar seus olhos para a outra face da Terra.

Já é hora, vou-me embora.

Não quero ser testemunha, quando a luz se for, dos lamentos e das euforias que a eternidade expande com seus galhos de misericórdia para os atormentados pelos desejos da saudade de querer voltar.

Já é hora, vou-me embora.

Quero repintar o tempo que me espera, colher os amores que me restam, deitar-me no chão que, com delicadeza, me permitirá abrir os olhos para mais um dia a contar e menos um dia a viver.

Vou-me, então.

Voltarei um dia.

Este lugar transborda beleza, mas também tristeza; transborda alegria, mas também saudade; transborda perdão, mas também arrependimentos.

Correu-me o tempo; os olhos fatigados pedem repouso.

Vou-me, então.

Voltarei um dia.

Nesta lembrança, levo a gratidão da vida.

Que a tolerância me perdoe.

Que meu espírito esteja limpo.

Que meus pecados tenham sido pagos.

Que minha saudade seja eterna, no coração dos que aqui ficaram.

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