Tempos da Vergonha

Poema 57 de 73
Tempos da Vergonha

Deus não julga quem ama; Ele simplesmente ama.

O homem é o arquétipo do maior e do menor valor que existe na natureza. O valor não está na carne que sustenta, mas na alma do espírito que carrega e transmite.

Aqui, onde vivo, há regras a seguir, mas só as segue quem está fora do círculo da vergonha. O que vale são as regras das exceções, pecados imperdoáveis que o tempo esconde.

O que vale para um não vale para o seguinte: são iguais, mas diferentes, confundidos para se ocultar.

Nesta terra, o mal cresce como erva-daninha. A terra foi regada pelas águas da ganância. O espírito de ajuda entre os homens perdeu-se pela falta de esperança.

Não há vergonha maior ou menor; há somente vergonhas. As vaidades consomem os inválidos até que se deitem no leito da morte.

Tudo que se pode ter pertence ao maior, escolhido pela exceção da covardia. O maior ser é o menor de espírito.

Gosto mais de como era antes. Gostaria um dia novamente. O tempo há de voltar. Precisa. Não há mais o que fazer, ou há?

O escudo e a lança permitem os atos da maldade. Os insultos são tantos que a coragem encolheu. Os olhos dos esquecidos fecharam-se pela vergonha e pelo cansaço.

Há uma maldade premeditada que encobre todos os desejos, transpirando enxofre em vontades ilícitas.

O sofrimento dos esquecidos é ocultado pela mentira. É importante que não saibas; o jogo precisa permanecer escondido.

Onde se ri, rouba-se.

Risos que não cessam.

A verdade foi vendida, a justiça calada, a vergonha coroada. Nada mais resta.

Assim como eu, muitos carregam esse fardo; outros se dobram. Somos cúmplices deste tempo da vergonha, que nunca se cura.

Vou-me embora.

Não, não vou.

Meu instinto não aceita que eu vá.

Estou faminto por paz e justiça.

Deus não julga quem não ama; Ele simplesmente ama.

Deus não julga ninguém; Ele compreende.

Ele acredita no homem que criou.

Meu povo não mais caminha; arrasta-se.

Meu povo não mais sonha; delira.

Meu povo não mais grita; chora.

Que a venda de Themis seja cortada.

Que sua espada seja lançada em cruz.

Que as mãos da desonra sejam amputadas.

Que os traços da maldade sejam engolidos.

Que a terra apodreça aqueles que nos traem pela ganância.

Que a desordem da vergonha seja pisada pela fúria dos bons.

Que o ferro esmague aqueles que sangraram o coração pelo medo.

Que um levante o outro, e o outro, por amor, ajude os demais.

Que um dia o céu seja de paz.

Que o irmão seja apenas irmão.

Que o sangue escorrido seja o véu que protege.

Que o dia que nasce respire promessa.

Que o corvo abra suas asas.

Que o tempo da maldade se acabe.

Que a prece dos inocentes seja ouvida.

Que os braços dos justos se unam para desfazer o medo.

Que o coração dos que lutam cresça.

Que a tormenta dos intrusos seja afogada pelas mãos dos bons.

Foi-se o tempo, mas não a esperança.

Somos herdeiros de um passado manchado; hoje, a vergonha cobre o presente.

A vergonha é o espelho que revela nossas escolhas.

Cada ato de covardia deixa marcas, mas cada gesto de bondade pode ser a semente de um novo tempo.

O que hoje é dor pode tornar-se amanhã a lembrança de uma luta vencida.

E quando os justos se unirem, não será apenas para desfazer o medo, mas para reconstruir a esperança. Pois a vergonha não é eterna: ela se dissolve diante da coragem e da fé.

O tempo da maldade pode ser longo, mas o tempo da justiça sempre chega, como promessa inscrita no coração dos que não desistiram.

Se não acreditas no meu Deus, acredita no teu.

Somos o que consentimos.

Não esperes que a dor te alcance.

Um dia, ela estava à tua frente; logo estará ao teu lado.

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