Tempos da Vergonha

Deus não julga quem ama; Ele simplesmente ama.
O homem é o arquétipo do maior e do menor valor que existe na natureza. O valor não está na carne que sustenta, mas na alma do espírito que carrega e transmite.
Aqui, onde vivo, há regras a seguir, mas só as segue quem está fora do círculo da vergonha. O que vale são as regras das exceções, pecados imperdoáveis que o tempo esconde.
O que vale para um não vale para o seguinte: são iguais, mas diferentes, confundidos para se ocultar.
Nesta terra, o mal cresce como erva-daninha. A terra foi regada pelas águas da ganância. O espírito de ajuda entre os homens perdeu-se pela falta de esperança.
Não há vergonha maior ou menor; há somente vergonhas. As vaidades consomem os inválidos até que se deitem no leito da morte.
Tudo que se pode ter pertence ao maior, escolhido pela exceção da covardia. O maior ser é o menor de espírito.
Gosto mais de como era antes. Gostaria um dia novamente. O tempo há de voltar. Precisa. Não há mais o que fazer, ou há?
O escudo e a lança permitem os atos da maldade. Os insultos são tantos que a coragem encolheu. Os olhos dos esquecidos fecharam-se pela vergonha e pelo cansaço.
Há uma maldade premeditada que encobre todos os desejos, transpirando enxofre em vontades ilícitas.
O sofrimento dos esquecidos é ocultado pela mentira. É importante que não saibas; o jogo precisa permanecer escondido.
Onde se ri, rouba-se.
Risos que não cessam.
A verdade foi vendida, a justiça calada, a vergonha coroada. Nada mais resta.
Assim como eu, muitos carregam esse fardo; outros se dobram. Somos cúmplices deste tempo da vergonha, que nunca se cura.
Vou-me embora.
Não, não vou.
Meu instinto não aceita que eu vá.
Estou faminto por paz e justiça.
Deus não julga quem não ama; Ele simplesmente ama.
Deus não julga ninguém; Ele compreende.
Ele acredita no homem que criou.
Meu povo não mais caminha; arrasta-se.
Meu povo não mais sonha; delira.
Meu povo não mais grita; chora.
Que a venda de Themis seja cortada.
Que sua espada seja lançada em cruz.
Que as mãos da desonra sejam amputadas.
Que os traços da maldade sejam engolidos.
Que a terra apodreça aqueles que nos traem pela ganância.
Que a desordem da vergonha seja pisada pela fúria dos bons.
Que o ferro esmague aqueles que sangraram o coração pelo medo.
Que um levante o outro, e o outro, por amor, ajude os demais.
Que um dia o céu seja de paz.
Que o irmão seja apenas irmão.
Que o sangue escorrido seja o véu que protege.
Que o dia que nasce respire promessa.
Que o corvo abra suas asas.
Que o tempo da maldade se acabe.
Que a prece dos inocentes seja ouvida.
Que os braços dos justos se unam para desfazer o medo.
Que o coração dos que lutam cresça.
Que a tormenta dos intrusos seja afogada pelas mãos dos bons.
Foi-se o tempo, mas não a esperança.
Somos herdeiros de um passado manchado; hoje, a vergonha cobre o presente.
A vergonha é o espelho que revela nossas escolhas.
Cada ato de covardia deixa marcas, mas cada gesto de bondade pode ser a semente de um novo tempo.
O que hoje é dor pode tornar-se amanhã a lembrança de uma luta vencida.
E quando os justos se unirem, não será apenas para desfazer o medo, mas para reconstruir a esperança. Pois a vergonha não é eterna: ela se dissolve diante da coragem e da fé.
O tempo da maldade pode ser longo, mas o tempo da justiça sempre chega, como promessa inscrita no coração dos que não desistiram.
Se não acreditas no meu Deus, acredita no teu.
Somos o que consentimos.
Não esperes que a dor te alcance.
Um dia, ela estava à tua frente; logo estará ao teu lado.
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