O Silêncio do Tempo

Poema 56 de 73
O Silêncio do Tempo

Assim começa o Tempo: vestido pelo manto do desejo, perfumado pela esperança da vida, agarrado às saudades da memória, segue solene pela eternidade.

O Tempo diverte-se, escondido pela falsa lucidez do seu valor, contorce-se com gargalhadas e, por prazer, abraça a saudade dos sentimentos esquecidos da alma.

O Tempo é apaixonado pelo instinto da vida, fiel ao universo que o criou; permanece com maestria oculto entre a luz e a escuridão.

Sua índole é incerta; seu encanto é tecido com primor entre lágrimas e sorrisos dos apaixonados pela vida.

Não te acanhes diante dos valores do Tempo, não cedas às insinuações de suas lembranças, nem te apegues aos seus ideais: de ti, o Tempo nada deseja senão tua aflição.

O Tempo é protegido pelo encanto do infinito; sua morada é a eternidade. Move-se sem piedade, entre balanços e laços da ilusão, exercendo o direito de ser sentido ou ausente, sem o jugo de ser julgado.

Para entendê-lo, é preciso contar os grãos de areia do seu tempo. Esta é a oração da paciência, sem a qual o Tempo não te permite a plena atenção do teu espírito e das tuas intenções.

Para o Tempo, ser benevolente é apenas sua escolha; diverte-se com o direito da permanência da vida.

É uma festa de fantasias onde só ele tem o direito de estar fantasiado; seu instinto ao eterno está lacrado.

O Tempo rompe o manto da dor, ignora o frio, esmaga a saudade e, por defesa, quando o esquecemos, persegue-nos sem aflição até que seu desejo de posse se complete.

A morte é nossa única luta possível contra o Tempo, como moeda de troca. Só assim é possível esconder-se dele.

Tempo: sem troféu, sem caráter, sem desejo; caminha no silêncio, dorme no silêncio, acorda no silêncio.

É um sentimento sem alma.

É a imagem do nada que é tudo; é a imagem do tudo que é nada.

A imagem do Tempo jamais se inverte, segue seu ritmo para a eternidade. Na esperança, o Tempo migalha flores; no desejo, sonhos; na fortuna, arrependimentos.

O Tempo, sem pressa, não agradece; oculta seus laços, voltando-se eternamente para si mesmo.

A face do Tempo é desconhecida; suas vestes são a ansiedade; seu aroma, a desilusão; seu preço, a ausência.

Ao que parece, tem olhos da cor do fogo.

Não dês atenção ao Tempo, pois não cabe à tua alma entendê-lo.

Permanece vivo, sustentado pelo espírito da existência, para garantir que apenas teu desejo seja válido enquanto perdurares.

Para distração do observador, o Tempo não dá importância aos valores da vida.

Quando espantado, alonga sua paciência, recolhe seus desejos e fecha os olhos para seu próprio tempo.

Depois, com humildade, de joelhos ao chão, pede perdão à sua mãe: a Eternidade.

O Tempo tem seu símbolo na esfera; nunca teve início, jamais terá fim. Aí está seu segredo.

Não sofras pelo Tempo: não foi tua escolha recebê-lo, nem é tua responsabilidade sustentá-lo.

Há muito se luta pelo direito ao Tempo, o que é covardia. Tu e ele sois de naturezas distintas, que apenas a imaginação, por sonhos, permite brincar e rir, sendo próximos sem jamais se tocarem.

O Tempo permite que sejas eterno com ele; no entanto, terás de dividir tua natureza, teus encantos e tudo o que te fez existir.

O Tempo permite, se for de sua bondade, que o suportes, que o sigas por desejo, até o caminho da tua morte: é um acordo entre parceiros.

Se o sofrimento te agride, não deixes que o Tempo, na face da tua imaginação, te vença.

A magia está em não demonstrar medo.

Faze do Tempo um pacto com a bondade e a gratidão, e terás uma chance de suportá-lo.

Talvez assim teus desejos se aquietem e possam observar e sentir o primeiro sinal de sua fraqueza.

Então, ele entenderá que as regras mudaram e te dará a bênção do destino de seguir só.

Seguir sem o Tempo é caminhar com o espírito da solidão, pois muitos são os grãos de areia a contar e recontar neste tempo sem juízo ou dono.

Este é o preço da tua nova existência — sem barganha — com o Tempo.

O Tempo não se derrota com força, nem com resistência. Vence sempre, com o silêncio, com a bondade e com o espírito disposto a sorrir diante da eternidade.

Quando a morte vier, o Tempo estará partindo.

Os risos e as lágrimas, por amor à tua alma e por gratidão aos teus sonhos, esperar-te-ão na porta do juízo para a bênção final.

Sem o Tempo, seu tempo não precisa mais de senhor.

A esfera do Tempo não se parte.

Se queres vencê-la, faça parte dela.

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