Que homem é esse

Poema 53 de 73
Que homem é esse

Aqui, onde o rei pede clemência, a maldade do tirano desperta, o covarde se assenta e o pequeno grita em nome de uma liberdade perdida, mas não aceita, eu pergunto: quem é este?

O tempo, senhor do destino, reclama sua dor e, descalço, deixa sua marca para a próxima geração, que aflige, esconde sua razão e desperta seu medo.

Uma luta sem piedade, uma mordaça apertada que apaga a voz e colhe o suor da face. É o estilo da ignorância, que, de longe, o costume eternizou, fragilizando a memória de uma vida desprovida de paixão e razão.

É o pulsar da regra a ser cumprida, pela mentira da fome do pecado.

É a face ingrata da mentira que retorce a cortina da vida, expondo os farrapos do tempo e a sujeira que suas dobras escondem.

Aqui, a história celebra seu martírio, sujando o chão com um preto avermelhado, que fede e gruda aos pés dos traídos.

A alma, quando aquece, destempera as paixões, escurece a mente, açoita o sentimento da razão.

Vou ter o propósito de escutar os perdidos. O covarde já criou a imagem da tristeza; agora, precisa apagar o leito da esperança, esquecido pela mão sórdida da mentira.

É preciso que a balança da justiça se equilibre; o pêndulo está a dobrar.

Que Deus escolheste, se o sangue que escorre em tuas mãos encobre os pecados do maldito?

Que Deus eu escolhi, se o que me fere se cobre de glória com a fortuna dos culpados e se suja com o sangue dos inocentes?

Que Deus eu escolhi, se o destino é marcado com a têmpera do aço de ouro, que não verga e não quebra o espírito que grita e não cede?

Que homem é esse que não escolhi, que desanima o sonho, repele a alegria, afoga a esperança e se glorifica pelos desejos dos miseráveis?

Que homem é esse que não escolhi, que vive à sombra do ouro roubado, colhido pelos braços da ganância, ao preço da brutalidade?

Que homem é esse que não escolhi, que escuta os gritos da dor e os confunde com os gritos da vaidade?

Hoje, o homem que aí está é uma dor que se colhe, uma verdade que não se vê, um sonho que nunca resistiu.

É apenas um farrapo que o destino marcou com a cruz dos inquietos de compaixão, com o sangue talhado dos pobres de coração, que o tempo, por delírio, abandonou.

Vou caminhar; meu espírito sobreviveu neste tempo de angústia, mas não tive voz para despertar a mente de um brilhante raro, que me desse luz para encontrar o berço onde, por necessidade e dor, repousaria minha alma selvagem.

O tempo seca minhas feridas, deixando um rastro de lembranças nesta face que chora, mas não grita.

Vou caminhar; que minha sombra não ultrapasse minha verdade, nem corte minha ira, já estampada nos versos que aqui escrevo.

Vou caminhar com essa humanidade que, ao longo dos anos, esqueceu o sentido da vida e cantou a prece da vaidade, do poder e do direito alheio.

Assim, resmungo ao tempo, que sempre me pedirá, e eu sempre lhe direi: tenha compaixão e responda-me:

Algum Deus pode me ajudar?

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