Que homem é esse

Aqui, onde o rei pede clemência, a maldade do tirano desperta, o covarde se assenta e o pequeno grita em nome de uma liberdade perdida, mas não aceita, eu pergunto: quem é este?
O tempo, senhor do destino, reclama sua dor e, descalço, deixa sua marca para a próxima geração, que aflige, esconde sua razão e desperta seu medo.
Uma luta sem piedade, uma mordaça apertada que apaga a voz e colhe o suor da face. É o estilo da ignorância, que, de longe, o costume eternizou, fragilizando a memória de uma vida desprovida de paixão e razão.
É o pulsar da regra a ser cumprida, pela mentira da fome do pecado.
É a face ingrata da mentira que retorce a cortina da vida, expondo os farrapos do tempo e a sujeira que suas dobras escondem.
Aqui, a história celebra seu martírio, sujando o chão com um preto avermelhado, que fede e gruda aos pés dos traídos.
A alma, quando aquece, destempera as paixões, escurece a mente, açoita o sentimento da razão.
Vou ter o propósito de escutar os perdidos. O covarde já criou a imagem da tristeza; agora, precisa apagar o leito da esperança, esquecido pela mão sórdida da mentira.
É preciso que a balança da justiça se equilibre; o pêndulo está a dobrar.
Que Deus escolheste, se o sangue que escorre em tuas mãos encobre os pecados do maldito?
Que Deus eu escolhi, se o que me fere se cobre de glória com a fortuna dos culpados e se suja com o sangue dos inocentes?
Que Deus eu escolhi, se o destino é marcado com a têmpera do aço de ouro, que não verga e não quebra o espírito que grita e não cede?
Que homem é esse que não escolhi, que desanima o sonho, repele a alegria, afoga a esperança e se glorifica pelos desejos dos miseráveis?
Que homem é esse que não escolhi, que vive à sombra do ouro roubado, colhido pelos braços da ganância, ao preço da brutalidade?
Que homem é esse que não escolhi, que escuta os gritos da dor e os confunde com os gritos da vaidade?
Hoje, o homem que aí está é uma dor que se colhe, uma verdade que não se vê, um sonho que nunca resistiu.
É apenas um farrapo que o destino marcou com a cruz dos inquietos de compaixão, com o sangue talhado dos pobres de coração, que o tempo, por delírio, abandonou.
Vou caminhar; meu espírito sobreviveu neste tempo de angústia, mas não tive voz para despertar a mente de um brilhante raro, que me desse luz para encontrar o berço onde, por necessidade e dor, repousaria minha alma selvagem.
O tempo seca minhas feridas, deixando um rastro de lembranças nesta face que chora, mas não grita.
Vou caminhar; que minha sombra não ultrapasse minha verdade, nem corte minha ira, já estampada nos versos que aqui escrevo.
Vou caminhar com essa humanidade que, ao longo dos anos, esqueceu o sentido da vida e cantou a prece da vaidade, do poder e do direito alheio.
Assim, resmungo ao tempo, que sempre me pedirá, e eu sempre lhe direi: tenha compaixão e responda-me:
Algum Deus pode me ajudar?
Compartilhar este poema
Avalie este poema
Seja o primeiro a compartilhar suas reflexões sobre este poema.