Eu e Ele, Ele e Eu

Poema 52 de 73
Eu e Ele, Ele e Eu

Protegido pelo desejo, numa noite densa e fria, que me persegue com os olhos da virtude e do prazer, peço que não me negues, nesta noite que é minha, os sonhos que, por direito, me pertencem.

Com um pouco de ilusão, meus instintos florescerão, e minha mente suportará as claras verdades deste tempo que me adormece.

Não fugirei; minhas pernas não me animam. Se me segues, que meus tropeços não sejam tua vitória. Julga-me por igual.

Sigo este caminho com marcas de sal e sangue, mas também de risos e abraços.

Vou escolher nossa prosa. Vem comigo e escuta-me.

Eu: Estou faminto por uma boa conversa, se me permites.

Ele: Permito; estou aqui para escutar.

Eu: Se teu manto brilha e conforta, por que não o ofereces a todos os teus, por direito? Não te agradam?

Ele: Ofereço-o a todos, mas poucos o pedem.

Ele: Por que resmungas, se privilégios tens?

Eu: Às vezes, o que minha consciência grita faz-me um devedor de ocasião. É o instinto do meu erro que prevalece. Perdoa-me.

Eu: Por que não abrandar nossos sofrimentos? O fel da boca já exprime a dor do castigo que, há muito, nos guarda sem necessidade.

Ele: O que te fere, fere-me também. Se tua dor te aflige, refaz tuas orações.

Ele: Por que estás pecando? Por que foges da tua alma, que, por dor, te arrasta noite e dia?

Eu: Inverti os princípios do bem pela vaidade que, sem permissão, apoderou-se dos meus direitos escusos. Não foi por maldade; senti o abandono por uma dor que imaginava sem cura.

Eu: Podes aceitar-me com estas vestes que uso?

Ele: Aceitaste-me como irmão, mas trataste-me como estranho. Não te fiz apenas para ser meu. Preciso dos teus ombros, não das tuas costas.

Ele: Se te fiz homem, acreditei na tua história. Retira essa fantasia. Não queres ser parte de mim?

Eu: É verdade que sou o que, por justiça, fizeste. Dá-me um tempo. Tenho orações que nos serviram para unir nossos pensamentos. Tu as ouviste uma vez; ouvi-las-ás outra.

Eu: Por que pintaste o céu de azul, se nas trovoadas se faz preto, com gritos de horror?

Ele: Para que lembres que dias de sofrimento também existem.

Ele: Se não concordas com os termos, por que não refazes pelo princípio de que um dia eu te ensinei?

Eu: O que me deste faz meu coração dobrar-se de risos, e, pelos meus olhos, as lágrimas da gratidão cantam. O que me ofereceste foi justo. Não nego tua doação, mas deixa-me ficar ainda.

Eu: Como faço para gritar a todos?

Ele: Grita a um. Este gritará a outro, e outro gritará também.

Ele: Confiarei no cedro que te darei. Posso?

Eu: Já te pedi perdão uma vez. É tempo de refletir. Não posso negar teu presente, meu gentil Senhor.

Eu: Preciso de uma pausa. Doem-me as costas. Não tenho tido dias de graça. Preciso refazer as injúrias que meu corpo grita.

Ele: Vai sem medo. Proteger-te-ei. Lembra-te: teus encantos não podem quebrar tuas esperanças, nem tuas promessas, muito menos teus deveres.

Eu: Voltei. Tive dores que me assustaram. Poderias ter-me ajudado?

Ele: Ajudei. Se não percebeste, foi porque não compreendeste. Poderia ter sido pior; seria, se… podes confiar.

Ele: Não precisas crer em tudo o que o você vê, mas crê em tudo o que você sente. Abrace tuas orações; elas serão os remédios da tua alma. Acredita.

Eu: Serei teus sentidos. Senti teu perfume. O tempo agora molha minha alma de bondade.

Ele: Fica em paz.

Eu: Em paz estou. Guia-me para onde fores.

Não sei como descrever o encanto desta conversa.

Ela ficou guardada na minha alma, num momento de sofrimento.

Ele fez de mim o que sou Dele: um só, uma pequena parte.

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