A História de uma Dor

Poema 50 de 73
A História de uma Dor

O que desejas, olhos meus? Verás o amor que procuras, mas não o encontrarás.

O que desejas, olhos meus? Não posso dar-te esse amor, pois, com a dor, também virá.

O que desejas, olhos meus? Se é para riso, o que tenho são lágrimas de dor que, se estiverem comigo, também te farão chorar.

Preciso encontrar onde deter a dor que não cessa, por ser eu um presente dela.

O que se dá só pode ser tirado por quem te deu; só ele tem o motivo.

Preciso beber o veneno que matará essa dor, que também me consome por inteiro, sem o consentimento da minha alma.

Preciso compreender que dor e amor são os olhos que nos falam, como castigo e bênção do direito à vida.

Preciso compreender que o que pedes não é o que podes, mas o que mereces.

Preciso compreender que o tempo descobre como perdoar e o que pode por ele ser perdoado.

Preciso compreender que tudo tem seu tempo, e eu o meu; devo aceitá-lo.

Preciso compreender; estou perdido.

Vou caminhar com ela, sentir a dor, sentar-me; ainda está comigo. Não estou pronto para aceitar, mas estou pronto para lutar.

O cansaço confunde meus pensamentos. Vou dormir, peço à dor que faça o mesmo. Minha prece segue o coração que, por piedade, afasta a dor; e, pela paixão, faz-me sonhar.

Ó cruel dor, não é o forte que a suporta; é o fantasma da dor que agride sem piedade, mas é a magia da alma que a torna apenas uma dor.

A dor é o único sentimento que transfere tua consciência ao abismo do medo.

A dor é o único sentimento que te faz crescer em lágrimas de cristal.

A dor é o único sentimento que te carrega pelos pés.

Tenho saudade de quando sorria.

Tenho medo de parar de sorrir.

Tenho esperança de morrer de rir.

Se dormir, não me acordes; deixa que o tempo o faça.

Qual é a dor que pode mudar o tom do meu destino?

O que é o tempo que cobre essa dor e, por desejo, me ampara?

Sou eu quem a dor escolhe?

Não sou eu quem a pede; se a tenho, foi por falta ou por excesso.

Perdoa-me; é o que me resta.

Vou transferir minha dor às águas do meu rio, levando-as tão longe que meus olhos as perderão.

O suor é frio; encosto-me onde posso. O jeito não se mostra; tudo é feito para seguir com a ternura eterna da amarga dor.

Sorri da dor, sorri na sua ausência.

Sorri da dor, sorri da sua fraqueza.

Sorri da dor, sorri da sua dúvida.

Encanta-me, dor, e farei do teu peso meu conforto.

Maltrata-me, e farei da tua cor um pecado sem dor.

Meus olhos molham-se pelo presente da dor; minha alma geme pelo tom da dor; meu espírito grita para espantar uma dor que é apenas dor.

A dor é o espelho onde reconheço minha humanidade. Sem ela, não haveria consciência da fragilidade, nem a força que nasce do enfrentamento.

É no seu peso que descubro o valor da leveza, e no seu silêncio que encontro a voz da esperança.

Se assim for, e assim decidido, olhos meus pedem e gritam: não há dor que me dobre os joelhos.

Poderei olhar-te, e então verás que apenas o amor permanecerá em meus olhos.

Que, sendo meus, agora são teus.

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