Era Themis, agora Hermes

Poema 49 de 73
Era Themis, agora Hermes

Eis o que minha consciência grita: não fuja.

Minha vergonha que me cobre com a cor do luto: não minta.

Criaram imagens com a beleza de Themis.

Com os olhos vendados, deram-lhe uma espada e uma balança.

No entanto, ainda não acredito.

O branco deveria ser sua cor, sem manchas.

Um olhar cego de águia, seu semblante.

Um senso de justiça, que sua espada corta em partes iguais.

No entanto, ainda não acredito.

Cega, mostra-se com uma máscara de vidro, sem transparência.

Presa, sem amarras, um pêndulo escorrega por minhas mãos fechadas.

Mãos caídas colocam-na no chão; escorregam.

Seus pés apodrecem sobre o ouro perdido.

Foi um céu que o azul tingiu de preto, por inteiro.

E, por fim, tudo se foi.

Vou deitar-me, cansado.

Tenho pressa e dores; preciso de conforto.

Ardem-me os olhos, doem-me as costas.

Esconder seria minha vergonha.

Gritar seria minha farsa.

Cuspir seria o ódio à minha verdade.

Não me calarei; minha boca está aberta.

Não fecharei os olhos com a cor do vento.

Não taparei os ouvidos com os farrapos da sobra.

Os olhos correm em busca de erguer sobre os pés o direito da marcha.

Ainda terei o direito de caça!

Ainda serei o dono da noite!

Esqueceram que os olhos se avermelharam com o tempo.

Tingiu-se a máscara de vidro em vermelho, a balança sem correntes, e a espada foi refeita com corte de um só lado.

O que me foge não me assusta; o que se esconde me adverte; o que me proíbe não existe.

Essa justiça que escolhe não tem a face de boa-fé.

Essa justiça que exalta não tem delírios permitidos em seus berros.

Essa justiça que castiga não se decide pelo avesso.

Carregamos uma mente distraída pelo simples e pelo brilho; deveria ela ser o tempero da água e do vento.

Posso calar-me; sou um.

Posso executar-me; tenho mãos.

Posso gritar; tenho voz.

Prefiro pintar letras; minhas ideias serão eternas.

A vergonha da justiça igualou-se à justiça da vergonha.

Sua morada é de grades, seu cheiro sufoca, sua imagem é de um Judas sem corda; sua covardia não a distrai.

Quando eu carregar uma cruz, não quero igualar-me, apenas lembrar-me da ajuda.

Se for uma espada, é porque me curvo em desespero.

Minha consciência pede, minha alma implora.

Vou vestir-me; tenho frio.

Uma nova manhã exibe-se; o dia é extenso.

Coloco sobre as costas o peso dos meus pensamentos; serei eterno, se minhas pernas não se dobrarem.

Onde houver grito, irei.

Onde houver lágrimas, secarei.

Onde houver a injustiça de Hermes, serei justo.

O sorriso pode estar em qualquer face; o perdão, na face do justo; a verdade, nos olhos do irmão.

Aqui e ali, tudo se mistura; são dores que não se vão.

Uma névoa densa esconde meus traços, mas não meus sentimentos.

As verdades são debochadas pelo escudo da mentira. Isso é traição.

Quem permitiu que a justiça mudasse o semblante de Themis?

Quem permitiu que a justiça fosse cega, vendada com um só nó?

Quem permitiu que seu traço fosse a balança de correntes de ferro ou ouro?

Quem permitiu que sua espada tivesse corte de um só lado?

Erraste, com teu delírio de falso rei.

Esqueceste que o tempo, em sua trovoada, enferruja a balança, lava a venda que cobre os olhos e retira da espada o sangue da maldade.

É a imagem falsa de Themis que, lavada com o suor dos inocentes, torna-se Hermes, exposta por inteiro.

Viverei num jardim de uma rosa, mas não num canteiro de mil rosas crescidas pelo estrume da mentira.

Viverei só se o destino me julgar como julga teus pares.

Viverei só se o destino o escrever pelo avesso de um engano.

Viverei só se meu grito não te fizer calar.

À esquecida Themis, minha gratidão.

Ao tolhido Hermes, meus desaforos.

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