O Próximo Dia

Poema 46 de 73
O Próximo Dia

Estou acostumado às dores que me caçam no acaso destes dias, que não me deixam adormecer e pouco florescem, numa memória que o tempo esqueceu e abandonou por seu próprio prazer.

Estou acostumado aos dias que ocultam minhas paixões aos olhos da minha saudade, distantes dos meus desejos, que, esquecidos, me deixaram.

Estou acostumado aos dias que sempre voltam com os mesmos propósitos desta vida, que não se cala nem se molda aos desejos que persigo e não alcanço.

Uma lentidão de novas ideias forma-se à noite e dissolve-se ao amanhecer. São promessas que a vida pede e o destino nega.

No próximo dia, serão apenas lembranças que os olhos não alcançam, e o pensamento, lento e sem brilho, não consegue mais criar as imagens dos sonhos, perdidos pelo tempo.

Erros abrigados na minha mente gritam com os sentidos da dor e da saudade, por não saber o que fazer com os próximos dias.

Escuto palavras esquecidas, com o tom das lembranças presas ao açoite da revolta, escusadas, que ferem onde tocam, ao longo dos dias e dos próximos.

Caminho sem os pés; apenas as ideias têm seu andar, flutuando numa brisa que me segue, mas não me resguarda, ao longo dos dias e nos próximos dias.

O cansaço é constante, ao longo dos dias e nos próximos dias.

Uma dor represa minha face; sinto que preciso me acalmar.

Vou dormir.

Entro na minha alma pedindo socorro, visitando o lado escuro da minha existência.

Penso, penso muito, e só consigo perceber que nada compreendi, pois estou cansado pelo que sou e por ser quem sou. As aventuras foram em vão, penso, com o passar dos dias.

Trocas de palavras amontoam-se e espalham-se pelos dias, indicando que um erro está presente.

Calo-me, a briga me amedronta. Não sou covarde; sou resiliente e esperançoso. Sei que terá fim.

Não posso abandonar meu coração; ainda devo abraçar os que me amam e, no momento, me assustam.

Não se quebra o gelo com as pontas dos dedos; acalma o coração, e ele se desfará por si só.

Aprendi a ter e a não ter tudo que, porventura, a vida me ofereceu. Entendi que os espaços vagos nem sempre estão disponíveis.

Seguirei; a neblina está densa. Peço ao Senhor que marque meus pés.

Quando penso no tempo, que solene veio e nem sempre foi agradecido, e que não será mais um ou outro, reconsidero voltar ao meu lugar, que, por costume, me acolhe e me acalma.

Debruço os olhos sobre mim mesmo; é hora de agradecer. A festa começa a ser escondida pelo cansaço dos atores.

Ainda terei sorrisos para oferecer?

Ainda terei braços para abraçar?

Ainda terei sonhos que, por belos, não poderei esquecer?

Sabia que o tempo trazia mágoa.

Esperava que o tempo fosse o remédio da alma.

Mas não sabia que, para tudo, sempre haveria uma dose de dor para costurar essas feridas, remédios necessários da alma, não do coração.

Esfrego-me neste labirinto que a vida chama de destino. Nas encruzilhadas, peço que uma mão me guie; já sou fraco para encontrar os melhores caminhos.

Volto no tempo, que, com magia, me faz belo e teimoso. Minhas risadas agora me acalmam. Sei que nada de novo poderei ter.

As sobras são sempre feitas de pedaços iguais; as que restaram não foram aceitas, mas ainda são iguais. É o desprezo.

O dia é sempre feito dos mesmos iguais.

Somos feitos de pequenos pedaços iguais.

Assim, sustento-me no presente, delicado pelas perdas que me tiraram o sustento.

Envergonhado, escondo-me sob a alma, refletirei as imagens do passado, onde guardo meus melhores dias, e as entregarei ao meu futuro, para que sirvam de exemplo.

Dias que se vão e não voltam; não encontro sentido em ser difícil repetir o que, por tempos, era só prazer.

Estou a caminho de mais um dia.

A luz branca despertou-me; começarei com minha oração, seguirei com meu trabalho e adormecerei para esperar o próximo dia, sempre o mesmo.

Ainda tenho esperança de que um belo sonho seja meu companheiro neste breve intervalo que é a noite.

Tenho esperança de que os próximos dias sejam melhores, que as recordações dos dias passados sejam as verdades que minha alma clamou.

E quando a noite voltar a se deitar sobre meus olhos, espero que o descanso seja mais do que esquecimento: que seja preparação para o novo. Pois, ainda que os dias pareçam iguais, é no coração que se escreve a diferença.

O próximo dia será sempre o espaço onde a esperança insiste em florescer.

Nesta dúvida, tenho o pressentimento de que os próximos dias serão de medo ou, talvez, os mesmos, mas nunca os velhos dias.

Contudo, irei mesmo assim, para o próximo dia; meu desejo me ordena, minha saudade minha súplica.

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