O Negro

Poema 45 de 73
O Negro

O que te serve, serve-me; é de direito.

O que te fere, escorre, escorre-me, na mesma cor.

O que te vale, vale-me; somos iguais.

Tu és o inverso, mas não o oposto; somos um só.

Tu és o adverso, do mesmo lado; somos amigos.

Tu és o que o tempo abriga e exalta, e a alma clama: justiça.

Tu és o primeiro que a terra fez; agradeço-te.

O desaforo de te julgar desigual esconde a preguiça da mente covarde, que, por intolerância, nunca soube julgar.

Caminhas com as asas da esperança; se te encolhes ao meio, teu brilho dobra, teu valor é duplicado.

O ardil da vida está nos olhos dos pobres de mente insana, que a história traída descreveu e não compreendeu.

Empurra teu coração; ele fere o olhar do fraco.

Estende tuas mãos; farás a consciência dos aflitos chorar.

Compreende teu semblante, aclamado por tua beleza.

Tua história é única.

Teu tempo, por si só, fala da glória das tuas heranças.

Renega o espírito torcido pela força, que não avermelhou o universo; contempla o encanto que possuis.

O contorno que te ilumina é o que te protege.

Compreende que tua raça coroa o tempo, pela fina pele que usas e que te faz belo.

Abraça tua alma com tua voz, pois já és rei antes de nascer.

Compreende que o que viste e sentiste foi a traição do fraco, que, por sua própria impotência, de espírito escasso, não entendeu.

Esse espírito débil, que não te seguiu, não soube compreender a magia do teu ser.

Suportaste uma dor que não te calou, nem pelo tempo, nem pela dúvida.

Herói foste, herói serás.

Os que te fizeram fraco não te seguiram para ver o forte em que te tornaste.

Na fila da criação, estás em primeiro; pagas o preço de ter uma alma privilegiada.

Escolhe teus olhos, pois és o escolhido.

Teus olhos não te denunciam; abençoam-te.

Veste-te com a harmonia, olha com a realeza, fala com a sabedoria; tua imagem supera tuas poesias.

Eu, por dever, por origem, por justiça, declaro-te o único responsável por eu ser o depois.

Não rasgues tua fantasia, ilumina teu caráter, proclama teu tempo de herói; o direito existe, tua coroa não se perde.

Ainda que o tempo não mude, tua oração é firme; não rasgarás a veste que te faz diferente.

És de manta escura e bela, que suportou castigos que não te culpam, feridas que não são tuas, palavras que teus ouvidos enfrentaram.

Tolhe o que for tolhido; açoita com um sorriso o que te fere; beija o que te compreende.

Sempre será teu o privilégio de ser o primeiro na existência do ser.

Tua humildade fez-te justo, teu caráter fez-te bom, tua índole fez-te santo.

És a garantia que o Senhor do universo proclamou, para revelar a maravilha que está por vir.

Não te traias; o melhor ainda não foi julgado.

O que clamam por inveja é o que te devem: a riqueza de tua existência.

Infeliz quem, com dúvida, te castiga.

Seus olhos fugiram antes que o sol se pusesse.

O que te faz belo é o que te faz único; o único é o que te coloca em pé, à frente das virtudes na existência do homem.

Este coração é forte porque esta cor é forte.

Uma oração não se faz com os joelhos; faz-se com a consciência livre, onde o justo é eternizado.

Se te perguntarem de onde vieste, diz que vieste de onde tudo começou.

Fica em paz; tua paz é merecida.

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