O Último Pensamento

Poema 40 de 73
O Último Pensamento

Não me vou; apenas irei descansar, no leito da minha esperança.

Não me vou; apenas irei meditar, na sombra da minha consciência.

Não me vou; apenas irei confessar, pelas memórias que não posso perder.

Mas ouvirei em silêncio.

Preciso manter minha alma viva.

Os tempos castigam os inocentes, perdoam os culpados e desfazem os já ausentes. Desesperança que sobra, amargura que se agiganta.

Todos os dias terminam.

Todas as noites terminam.

Meus sonhos terminam.

Os sonhos de todos terminam.

Vou reler algumas folhas que há muito escrevi, cuidando da alma e do corpo.

Minha alma está cansada.

Meu corpo também está cansado.

Todos nós estamos cansados.

Precisamos descansar, corpo e alma.

Todos precisam de um descanso.

O tempo está quente e seco; difícil entender as novas paixões.

Uma mentira disfarçada, que meus olhos percebem, é constante.

É preciso buscar novos entendimentos. Sinto-me aflito.

Não consigo compreender; alguma alma boa poderia me ajudar.

Alguém precisa vir.

Precisamos de alguém; há certa urgência.

Vou buscar nos meus pertences algo que me ajude a esconder meus medos.

Tenho tido ocasiões que me obrigam a repensar.

As cores das folhas mudam com o tempo, depois voltam; faz parte da natureza.

O céu muda de cor, azulado de novo.

Nossas emoções mudam nosso sorriso.

Vejo cores sem tons, brilhos que se apagam, amores que se vão.

Nossas rugas nos denunciam.

Confesso: minhas fraquezas são piores do que imaginava.

Os pensamentos se foram; depois voltarão, melhores ou piores, não sei.

Existem milhões de estrelas.

Temos chance; alguém pode nos ver.

Esquece tudo o que aprendeste; tudo foi infinitamente modificado.

Não há mais escolhas, apenas o medo de não as ter.

Não há mais necessidade, apenas o medo de não ser notado.

Não há mais beleza; ser o único é o que conta.

Não há mais inocência; o pecado é o novo Senhor.

Perdemos o direito, ganhamos a covardia das palavras mentirosas.

Tenho feito boas caminhadas; pés descalços sentem que a terra tem algo a me dizer. Prefiro não comentar.

Estou perdido; as ocasiões são delirantes.

O frio e o calor pouco importam; estou com entusiasmo para agradar à alma.

Não tenho tido sorte.

Poucos têm sorte.

Os amigos me chamam; um bom afeto trocarei.

Um fiasco de terra nova ainda existe; vou alcançá-lo, seguirei seu cheiro e sua luz.

Se encontrar um caminho onde o ouro é oferecido, avisarei.

O pecado é constante, engole as feridas do desejo. Perdoa-me a expressão.

As pessoas misturam-se com gostos diferentes, caminhando com pés diferentes.

Vejo pessoas falando sozinhas.

Vejo pessoas que não falam.

Vejo pessoas alucinadas, com corações sem cor.

Às vezes, não vejo nada; apenas imaginações.

Às vezes, ninguém me vê; estou ausente do mundo.

Parece que a vida se foi mais do que percebi. Envelheci.

Um abraço, eu dou à vida.

Outro, eu peço.

Não posso sentar-me e esperar.

Vou empurrar minhas ideias, construir novos princípios, um novo mundo.

Se cair, levanto-me; meu filho me ajuda.

Filhos levantam os pais.

Existe um dia para todos.

E, para todos, esse dia existe.

Hoje foi o meu.

Vou fechar meus pensamentos.

Peço que alguém grite para que meus anjos, por piedade, me despertem.

A luz da vida não pode iludir a luz da alma.

Amo a todos.

É fácil gostar das pessoas.

Se precisar, gosto de você.

Compartilhar este poema

Avalie este poema

Comentários dos Leitores

Seja o primeiro a compartilhar suas reflexões sobre este poema.