As Imperfeições

Poema 4 de 73
As Imperfeições

Guardadas sob o manto da alma, escondidas por incerteza e medo, as imperfeições são o que a vida me impôs e que eu, por delírio inicial, aceitei e recolhi como símbolo da minha fraqueza e da minha covardia.

É um destino que imprime a fogo a responsabilidade das marcas dos meus pés no chão da história que, perdida, será sem valor.

Guardadas no mesmo arco, entre os sonhos e a realidade, coloco as imperfeições, que nunca pude esconder no armário das minhas memórias perdidas, para que um estandarte da minha imagem manchada seja esquecido por aqueles que me veem pela falsa luz da bondade e da caridade.

Eis o que agora imploro.

Guardadas entre as brechas do tempo, preservo as imperfeições que me sustentam neste covil da loucura, que minha história quis preencher com as letras das lágrimas da dor. Não fugi; dobrei-me e, por fraqueza, as aceitei e, aos meus, beijei-os e me ajoelhei.

Eis como termina e determina meu estado de espírito.

Todos somos vítimas das imperfeições, que são garras da alma que se fixaram pelo tempo no céu da nossa jornada, lembrando-nos das alquimias de brilhos desperdiçados, que fugiram da luz para morar, por escolha, na casa ofuscada do erro.

Combinei com o destino a chance de perdê-las nos dias finais, mas ele apenas resmungou e, com um olhar pouco compreensivo, respondeu-me sem necessidade de palavras: tudo pode ser perdoado.

É assim que se dita uma regra: as distinções não são privilégios, não há acordo entre as partes se o justo não for a regra da exclusão.

Entendo que seguirei este caminho, parte escolhido por mim, parte imposta pelo destino; será uma batalha pela sobrevivência das histórias que deixarei e, se eu tiver voz, as contarei àqueles que me permitirem ser ouvido ou àqueles que me escutarão sem o desafeto da servidão.

Penso que seria em vão não as ter, afinal, minhas ações também foram moldadas por essas mesmas imperfeições. Seria eu o rico ser do sorriso de ouro, se uma mentira pudesse escondê-las?

Não me apavorei; as leis do destino não têm intenção de ferir. Ele as criou apenas por deferência aos demais; afinal, suas loucuras são suas, suas ofertas foram aceitas num jogo onde não se escondem as cartas, muito menos as marcas.

O jogo é simples, mas a implicação é apropriada, pela responsabilidade.

A expressão do simples não é a expressão do menor.

Hoje, meu eterno tempo, que colore os dias pelas lembranças e pelos desafios, já aprendeu o valor das imperfeições frente às vontades de um princípio que me elege e me vê pelo justo que sou.

Não devorarei os desejos alheios; minha sede não pode ser silenciada pela mentira ou pela vaidade.

Tirá-las seria improvável, pela forma como se prendem à coleira da alma, ajustada e rente, para que a perda seja impossível, mesmo pelo pensamento.

Nunca esquecerei como as contraí; foram decisões que, por princípio, eu julgava corretas. Quanta ingenuidade nesta alma que segue com dias de confiança e outros de confusão, para uma vida regida pela têmpera de um aço forjado no assoalho de uma existência de dúvidas.

Vou me reorganizar, farei uma busca com olhos de águia; escolhas corretas agora são as que contam, não há mais espaço para os delírios do riso falso.

Chego a este final cansado, com o pensamento voltado para o improviso, por entender que não serei ninguém se, no meu tempo, não fizer ninguém. Uma imagem é embelezada em agradecimento às imperfeições que, por exclusão, tentarão ferir o princípio do belo.

É a luta que nós, seres humanos, enfrentamos desde nossa criação.

As imperfeições são um atributo de intolerância caprichosamente colocado em minha caminhada, para ferir minha alma e me lembrar de quão longe estou da expressão do Senhor.

As imperfeições são as covardias que usamos para justificar nosso estado de espírito.

As imperfeições são os pecados ocultos que, guardados pela vergonha, chamamos de necessidade.

Assim me aceito, assim me julgo, assim não me perdoo.

Não tenho direito de pedir, nem de ouvir a voz do perdão pelos erros que pratiquei. Só me é permitido o silêncio humilde de dizer: eu errei.

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