O Princípio e o Início

O princípio é o anoitecer de todos nós; os raios do sol já quase não me tocam. O sol, com seu contorno arcado de cor fogo, avermelhado, acanhado, deita-se no poente. Outros deuses o chamam.
Caminho solitário; já não há tanta luz.
O sol agradeceu e, em seu direito, cobriu-se por vontade.
Arrastou os últimos raios, sem preguiça, mas com delicadeza.
Vênus, única e charmosa, surge com o brilho de sempre. Atrevida pela beleza, torna-se a rainha do céu. A lua a protege; ambas, veneradas pelas fantasias, figuram nas histórias de nossas lendas.
Amadas por profetas e poetas, beijam-se pelo amor que criaram ao longo dos séculos e, obedientes e delirantes, entregam-se uma à outra.
Pouco a pouco, outras estrelas acendem seus brilhos: Cruzeiro do Sul, Cães do Céu, Cabeleira de Berenice e tantas mais. Trazem um majestoso mosaico que a profecia e o segredo do universo caprichosamente desenham há milênios.
A noite é seca; minha respiração é curta.
Vou devagar; o coração não é o mesmo.
Vou com atenção; não posso tropeçar.
Vou sem prosa, com poesia.
Preciso chegar. As histórias são boas; preciso sobreviver e escrevê-las. Eles me esperam.
A noite germina em meus olhos, resfria minha face e esconde-me da minha sombra.
Tenho carinho a oferecer.
O perfume envolve-me suavemente; encanto-me com o momento. Sinto que esta hora é o princípio, quando tudo se molda e, carinhosamente, se fecha nesta imensidão, onde a alma sorri e os olhos, desejosos, lacrimejam de alegria. Estou feliz.
Pudesse eu, faria desta uma noite eterna, por escolha. Não podendo, sigo em frente, deixando que a percepção da perda, que carrego, não permita que meus olhos se agasalhem.
Não posso esconder-me desta maravilha que me oferecem.
És fantástica, minha noite. Agasalha-me, e eu te possuo.
Preciso ser testemunha do milagre; assim, prossigo.
A brisa é suave, dança, eleva-se e aflora meus sentimentos.
Noite, cobre meus olhos, mas não minha mente.
Noite, mostra-me um lago de estrelas que brincam.
Noite, estrelas piscam como palavras que celebram, e eu não sei.
Noite, estrelas brincam com meus olhos que as perseguem, inquietos.
À noite, adormeço por instantes. Agora, tudo faz sentido — perfeito, mágico.
Ó noite, destranca tuas portas. Preciso que os sonhos me carreguem.
A noite segue; eterna não será. Um leve azul-cinza pincela o ocidente; alguém irá nascer.
O início chegou. É o dia, tão suave quanto o princípio, que vem mansamente tomar conta do universo. É o dia branco-azulado de todos nós, anunciado por linhas brilhantes e suaves, espalhadas e alinhadas, que proclamam o novo dia.
O sonho teve seu princípio, que a noite lhe ofereceu; o dia lhe dará a chance de tornar-se real.
O novo perfume é suave, não incomoda. As folhas brotam lágrimas, mas não choram. Ele retorna do lado oposto, nascente, mais claro, com a densidade de um Deus.
Com respeito, as estrelas partem. A lua ainda insiste, mas com pouco brilho. O gigante retornou, exigindo respeito.
Vênus, agora, é a Estrela-d'Alva. Mudou de nome; era Vésper.
Assim somos nós: princípio e início num círculo vicioso de eterna ternura, que mansamente nos faz nascer, crescer, aprender, sustentar, procriar, viver, envelhecer e despedir-nos.
É o velho e bom ciclo da vida, onde ficam guardadas nossas histórias e conquistas.
A leveza do início está no respeito ao princípio, e a ternura do princípio está na delicadeza do início. Princípio e início são obras de Deus, que, por milênios, nos mostram que o espírito da vida está guardado no coração da noite e nos olhos do dia.
Olhos que me adormecem: o princípio.
Olhos que me despertam: o início.
O dia é claro; o tom da vida muda, mas o pulsar das coisas não.
O dia é claro; as cores definem-se, explodindo o coração de alegria.
O dia, claro, mostra sem constrangimento tudo o que a noite consentiu.
O dia é claro; é hora de ajoelhar e dizer “obrigado”.
Continuarei a viver com o princípio e o início até que, por decisão, as luzes da noite ou o brilho do dia se apaguem.
E assim, entre o silêncio da noite e o canto do dia, descubro que minha vida é feita de instantes que se repetem em beleza.
Cada princípio guarda a promessa de um início, e cada início carrega em si a memória de um princípio.
É nesse diálogo infinito que encontro a paz de existir.
As perfeições do tempo, chamadas princípio e início, são obras do meu Deus. Ele as chamou de vida.
E eu chamo do ciclo interminável do universo: perfeito.
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