O Princípio e o Início

Poema 39 de 73
O Princípio e o Início

O princípio é o anoitecer de todos nós; os raios do sol já quase não me tocam. O sol, com seu contorno arcado de cor fogo, avermelhado, acanhado, deita-se no poente. Outros deuses o chamam.

Caminho solitário; já não há tanta luz.

O sol agradeceu e, em seu direito, cobriu-se por vontade.

Arrastou os últimos raios, sem preguiça, mas com delicadeza.

Vênus, única e charmosa, surge com o brilho de sempre. Atrevida pela beleza, torna-se a rainha do céu. A lua a protege; ambas, veneradas pelas fantasias, figuram nas histórias de nossas lendas.

Amadas por profetas e poetas, beijam-se pelo amor que criaram ao longo dos séculos e, obedientes e delirantes, entregam-se uma à outra.

Pouco a pouco, outras estrelas acendem seus brilhos: Cruzeiro do Sul, Cães do Céu, Cabeleira de Berenice e tantas mais. Trazem um majestoso mosaico que a profecia e o segredo do universo caprichosamente desenham há milênios.

A noite é seca; minha respiração é curta.

Vou devagar; o coração não é o mesmo.

Vou com atenção; não posso tropeçar.

Vou sem prosa, com poesia.

Preciso chegar. As histórias são boas; preciso sobreviver e escrevê-las. Eles me esperam.

A noite germina em meus olhos, resfria minha face e esconde-me da minha sombra.

Tenho carinho a oferecer.

O perfume envolve-me suavemente; encanto-me com o momento. Sinto que esta hora é o princípio, quando tudo se molda e, carinhosamente, se fecha nesta imensidão, onde a alma sorri e os olhos, desejosos, lacrimejam de alegria. Estou feliz.

Pudesse eu, faria desta uma noite eterna, por escolha. Não podendo, sigo em frente, deixando que a percepção da perda, que carrego, não permita que meus olhos se agasalhem.

Não posso esconder-me desta maravilha que me oferecem.

És fantástica, minha noite. Agasalha-me, e eu te possuo.

Preciso ser testemunha do milagre; assim, prossigo.

A brisa é suave, dança, eleva-se e aflora meus sentimentos.

Noite, cobre meus olhos, mas não minha mente.

Noite, mostra-me um lago de estrelas que brincam.

Noite, estrelas piscam como palavras que celebram, e eu não sei.

Noite, estrelas brincam com meus olhos que as perseguem, inquietos.

À noite, adormeço por instantes. Agora, tudo faz sentido — perfeito, mágico.

Ó noite, destranca tuas portas. Preciso que os sonhos me carreguem.

A noite segue; eterna não será. Um leve azul-cinza pincela o ocidente; alguém irá nascer.

O início chegou. É o dia, tão suave quanto o princípio, que vem mansamente tomar conta do universo. É o dia branco-azulado de todos nós, anunciado por linhas brilhantes e suaves, espalhadas e alinhadas, que proclamam o novo dia.

O sonho teve seu princípio, que a noite lhe ofereceu; o dia lhe dará a chance de tornar-se real.

O novo perfume é suave, não incomoda. As folhas brotam lágrimas, mas não choram. Ele retorna do lado oposto, nascente, mais claro, com a densidade de um Deus.

Com respeito, as estrelas partem. A lua ainda insiste, mas com pouco brilho. O gigante retornou, exigindo respeito.

Vênus, agora, é a Estrela-d'Alva. Mudou de nome; era Vésper.

Assim somos nós: princípio e início num círculo vicioso de eterna ternura, que mansamente nos faz nascer, crescer, aprender, sustentar, procriar, viver, envelhecer e despedir-nos.

É o velho e bom ciclo da vida, onde ficam guardadas nossas histórias e conquistas.

A leveza do início está no respeito ao princípio, e a ternura do princípio está na delicadeza do início. Princípio e início são obras de Deus, que, por milênios, nos mostram que o espírito da vida está guardado no coração da noite e nos olhos do dia.

Olhos que me adormecem: o princípio.

Olhos que me despertam: o início.

O dia é claro; o tom da vida muda, mas o pulsar das coisas não.

O dia é claro; as cores definem-se, explodindo o coração de alegria.

O dia, claro, mostra sem constrangimento tudo o que a noite consentiu.

O dia é claro; é hora de ajoelhar e dizer “obrigado”.

Continuarei a viver com o princípio e o início até que, por decisão, as luzes da noite ou o brilho do dia se apaguem.

E assim, entre o silêncio da noite e o canto do dia, descubro que minha vida é feita de instantes que se repetem em beleza.

Cada princípio guarda a promessa de um início, e cada início carrega em si a memória de um princípio.

É nesse diálogo infinito que encontro a paz de existir.

As perfeições do tempo, chamadas princípio e início, são obras do meu Deus. Ele as chamou de vida.

E eu chamo do ciclo interminável do universo: perfeito.

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