A Discórdia

Poema 38 de 73
A Discórdia

Estou sentado à sombra de um frondoso tamboril. Suas folhas, pequenas e delicadas, cobrem-me os ombros suavemente, quase sem que eu as perceba.

Um casal de bem-te-vis sustenta-se num galho fino. Apaixonados pelo olhar, cantam. Observo-os, sem espanto. Partem juntos, discretos.

Preciso descobrir onde moram as alegrias da minha alma e da minha consciência. Preciso entendê-las, com o propósito de unificar suas paixões, que por vezes se encaram como opostas e pouco obedientes.

Por que será?

Tenho a urgente obrigação de vê-las alinhadas num só lado da minha história. Preciso realizar acertos; e o tempo pode não ser longo.

Devo encontrar um meio de fazer isso sem que minhas atitudes manchem as vestes dessas duas estrelas da eternidade. Seria impróprio.

Serão apenas discussões delicadas, com réplicas e tréplicas, até alcançar um resultado justo. Assim, terei o fruto dessa união, que me permitirá manter o espírito do equilíbrio e da justiça, para posicionar-me no lado certo das minhas decisões.

Minha consciência cobra-me bondade; é justo.

Minha alma pede-me justiça; é justo.

Sustento ambas com os pingos da gratidão e ofereço-lhes apenas o necessário. Não pode haver excessos; é preciso evitar novos conflitos.

Se eu for o motivo do debate, digo: não haverá escolha senão a paz entre elas.

Permaneço neutro; é obrigatório.

As folhas do tamboril continuam a planar no ar, como pequenas abelhas. Mágico.

A alma é o emblema onde estão inscritos os princípios da minha consciência e, por sua vez, será a eterna lembrança que revelará a importância da vida que vivi.

É o resultado desta jornada que não escolheste, mas que, por dever, deves viver até o fim, escrita pela mão do destino.

A consciência são meus pensamentos, que peregrinam fartos, sem se encolher nem se esconder, com a livre escolha de celebrar ou lacrimejar suas decisões.

Acredito e confio nela.

Minha alma tem uma paixão: os atos da minha justiça.

Minha consciência tem um dever: os atos da minha bondade.

Consciência minha, conquistei tua bondade quando te revelei o ser humano que sou.

Alma minha, cobri-te com uma manta de ouro, para teu conforto, e envolvi-te com os atos de justiça que meus dias me permitiram.

Alma e consciência, uma é expressão da outra, no sentido da existência.

Sou grato a esses dois gênios encantados que me seguem, de mãos dadas, diariamente.

Minha sombra curva-se, agradecida; elas se entenderam.

Fui fiel aos meus princípios. Não posso jamais ter o direito de pedir; o máximo que me alcança é o sentimento de gratidão.

Evitei, ao longo do tempo, os pecados camuflados pela voz da ganância. Pela inquietação de saber enxergar as faces dos oferecimentos infiéis, livrei-me. Percebi que não eram abençoados. São muitos; à primeira vista, não os aceito. Agradeço.

Hoje, ando com um coração que sorri ao abrir-me os olhos e me abençoa ao fazer-me dormir.

Recordo tudo o que a vida me deu. Aprendi quase tudo, acolhi alguns ensinamentos e restituí muitos. Vivi às margens da esperança, guiado pela ética, a senhora do pensamento perfeito.

Sofri alguns anos, amei muitos, odiei poucos. Envelheci pelas mãos do tempo e sorri por saber agradecer. Tudo o que não tive pertence aos tempos da ausência; não é meu, não o vivi, não me fez falta.

Estou faminto pelas lembranças dos bons anos que tive. Sorrirei até o fim. Meu coração desconhece a fome e a sede.

Disseminarei meus desejos a todos que minha alma, assistida pela minha consciência, decidir.

Alma e consciência são os retratos que guardam os pensamentos e as virtudes que a vida, por interesse e direito, confessa a todos. São a aura formada pela tua pessoa nos anos que o destino te concedeu.

Beijo-as.

Seu desejo foi cumprido; aceitaste. O julgamento foi justo, o tempo está coroado de bons sentimentos e dançará contigo até a última música deste baile que é a vida.

Alma e consciência, irmãs gêmeas de um mesmo momento.

Outra vida melhor nos foi prometida e virá, ainda que nunca tenhamos o privilégio de conhecê-la antecipadamente.

Se a vida é um baile, a música que ecoa em meus dias é composta pela harmonia entre alma e consciência.

Cada nota é um gesto de bondade, cada acorde é um ato de justiça, e juntos formam a melodia que sustenta minha existência. Não há dissonância quando ambas dançam lado a lado.

Alma e consciência não são discórdias. Recebam meu melhor elogio: serão minhas dez mil vidas, se assim for permitido.

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