O Vendedor

Poema 37 de 73
O Vendedor

Sou um vendedor da esperança, vivendo entre os achados da ilusão e os perdidos no tempo.

Busco almas para oferecer tudo o que posso e tenho para vender. Não consigo realizar meu intento.

Coisas de ocasião, venderei.

Se não as quiserem comprar, não insistirei.

Carrego uma mala, em más condições, com um pouco de tudo. O item mais caro é uma pequena caixa azul, lacrada pelo respeito, rotulada com as cores do amor. Seu nome é família; restam poucas.

Preciso de auxílio. Quem sabe um anjo possa me ajudar?

Conheço um: Rafael, de olhos azuis. Vou perguntar-lhe.

Vendo de tudo, pelo preço da paz, em condições que só a bondade admite.

Sou um vendedor que o tempo chama de esperança.

Mercadorias preciosas, à venda.

Não falo do tempo de vida, já definido, mas do tempo dos desejos, da alegria, da bondade. São tempos aleatórios, que espantam o medo do coração e fazem sorrir o pensamento da magia.

Sou também um andarilho em busca de uma prosa que ilumine meu caminho e traga boas notícias. Tenho muitas falas a contar.

Envelheci. Não chego mais com as palavras de outrora ou com as ofertas da alegria de sempre. Meus dias são caprichosamente contados. Não tenho muito tempo, mas o tempo me acolhe com o carinho de sempre.

Preciso entender o que meu coração ainda pede e minha consciência exige. Tenho um assunto a deliberar; o juramento foi prometido.

Há de se cumprir. Tenho fé.

Tenho solicitações exigentes, com muitas ressalvas.

É assim mesmo: todos querem tudo, e não há para todos.

Os pedidos que te fazem sorrir, chorar, orar, agradecer, eu os ofereço. Troco-os. Vendo-os. Só não os empresto.

Temo que não me sejam devolvidos.

Faltam-me muitas visitas; ficarei magoado se não as realizar.

Preocupo-me com meus costumes. Mudá-los seria confessar minhas fraquezas. Talvez seja inútil. Já tenho cabelos brancos, olhos cansados e uma voz a que me falta o ar.

Meus sentimentos precisam ser validados. Os amigos serão os juízes dos valores a considerar.

Parece que estou certo.

O mundo precisa de vendedores.

Serei justo.

Usarei preços de ocasião, sem exagero.

O tempo insiste, dobra-me o cansaço e foge sem vício para caminhos que só ele conhece.

Tira-me o direito de uma oferta melhor. A procura é grande.

Serei justo.

O lucro pela gratidão será a prova da minha existência.

Sou um vendedor de ocasião.

Carrego na lembrança meus tropeços, meus berros, meu charme, meu perfume. Eles ensinam minha mente a ser tolerante para saber oferecer o melhor.

O futuro cobrará sua parcela merecida, chamada comissão.

O visual, às vezes, é importante. Ficarei bonito. Usarei uma roupa nova, azul.

Por motivos que desconheço, meus desejos diferem dos sonhos que minha mente abraça e beija nas horas de paz e solidão.

Aceito, sem questionar; é direito de quem manda.

Reconheço logo quando a oferta é desfavorável. Mudo de assunto. Falo sobre gente, tempo, coisas do dia, de pouca importância.

Sou um vendedor de sonhos, oferecendo paz e outros pertences que a alma necessita.

A alma é o alimento do tempo.

Onde vivo, muitos adoecem pela falta das minhas mercadorias. Preciso ser rápido; tento resgatar da minha alma o direito da venda.

Não posso. Tenho o diploma de vendedor.

Eles querem um mundo faminto.

Nunca me esqueço: a maldade não tem preço, é de graça, folheada na cor do ouro. Tudo mentira.

A ambição esvaziou o copo da fartura.

A maldade apagou as linhas onde estavam escritas as preces do amor.

A inveja vendeu as mentiras da amizade.

Eu, por alquimia, se necessário, transformo tudo. Ofereço o que o sonho pedir, sem exageros.

Tenho o direito de ser isento dos atos de maldade e de tudo o que de mal possa existir.

Vou colocar luz no caminho.

Minhas mercadorias, isentas de pecado, são doações do Divino.

Brilham como estrelas, com o selo de garantia do Criador que me formou.

Assim, irei de porta em porta com a mala que carrego e com os preços que a bondade permite.

Que minha vida, pelos anos que se foram, pelas verdades que carrego, conceda-me sempre o prazer da visita, se tua alma assim permitir.

Podes confiar.

Boas compras.

Espero que gostem.

Não há necessidade de pagamento em espécie. Os valores são quitados quando transferes ao próximo, por vontade e liberdade, o que te ofereci e compraste. Irá um dia oferecer e doar.

Com cuidado!

Este mundo insiste em seguir com as marcas da traição.

Um anjo mau, por vingança e crueldade, oferecer-te-á um cálice dourado, com traços de mentira, preenchido com maldade e desejos desonestos — coisas que nunca pediste e que eu jamais ofereci.

E quando o tempo me chamar para fechar a última venda, espero que minhas mercadorias tenham sido bem distribuídas.

Que a paz tenha encontrado abrigo, que a esperança tenha se multiplicado e que a bondade tenha sido passada de mão em mão, como herança eterna.

Assim, minha mala, mesmo vazia, estará cheia de sentido.

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