O Conto

Poema 35 de 73
O Conto

Agasalhado sob um manto desalinhado, levanto-me cedo com o dia que nasce. Espero.

Tenho afazeres de pouca importância.

Não me encanta a dor.

Não me encanta o cansaço.

Não me encanta o desânimo.

Queria que todos tivessem o que poucos têm, e que o que poucos têm fosse de todos. Faz sentido, se o coração, por doação recíproca, permitisse. Às vezes, o que não se tem é mais importante do que o que se possui.

Agarrados à vida, como as folhas às árvores, somos nós com outros olhos.

O tempo amadurece, empurra-as ao chão. Rolam, e o vento as leva.

Elas não choram; já choraram.

Criam outras: um novo ciclo.

Somos iguais, com tempos iguais, perfeitos demais.

Caímos, somos engolidos; a terra resolve e dissolve.

Nascemos de novo.

Temos contos a serem contados, libertados pela consciência livre que protegemos. Queres ouvir?

Contarei um.

Serei breve; nem o tempo perceberá.

Um sol nasce diariamente. Perguntarei se sabe algo que eu desconheço. Parece experiente. Eu o vi ontem.

Nada de mais.

O espírito da vontade é meu alimento.

Perco-o, e minha história termina.

Vou andando, passo por caminhos largos e estreitos.

Sou um andarilho com fôlego, também cansado.

Vejo torturas e aplausos, risadas e choros, com pressa para contar.

O tempo não esconde; não tem tempo. É divino.

O perfume, às vezes, percebe-se, talvez por luxúria. Procurarei abrigo. Conforto-me.

Vi um pássaro repousar num galho, leve, vestido de amarelo.

Dormi. A mente repousa, os pensamentos encolhem-se. É tempo de flutuar. Adormeci.

A sede ou a fome te acordarão; não te preocupes.

Agradeço. Estava cansado, senti gosto de sangue. Cuspi.

Abri meus olhos, e o dia os dele.

Sol e lua encontram-se quando acordo: um nascendo, outro minguando, sem brigas, unidos por uma mesma causa.

Preciso ser atento; o sol intima, eterno.

Dar água a quem pede. Quem não pede, às vezes, só precisa de cortesia. Tenho sede.

Calado há muito, temo a loucura. Rezarei, com fé proclamada.

Uma água escorre, translúcida. Usá-la-ei; é meu favor, também meu direito.

O tempo mastiga as vontades, não perdoa. Acharei uma forma de agradar. Trarei novidades; o tempo adora novidades.

Penso: o que sobra no mundo?

Acho que sei. Penso.

Pecados. Só ele confirma meu pensamento. Sou lógico.

Usarei um direito: andar pela sombra.

Serei curador de pecados, uma promessa.

Tenho privilégios nesta profissão. Resgato gente, faço-a voltar ao início: alma pura, com cheiro de jasmim, meu preferido.

Curarei a todos. Não pode ser utopia.

Usarei palavras, espalhá-las-ei ao tempo, para todos que quiserem me ouvir.

Os segredos do sucesso são poucos: olhar com perdão, falar com bondade, sorrir com esperança.

É preciso insistir; o prazer é uma promessa.

Tenho folga. Desarrumo-me, sinto o vento fresco do início da noite. Rezei e pedi.

Ninguém é maior que um. Acalma tua alma. O trajeto é mais difícil do que se pode imaginar. Guarda tuas forças.

Visto uma roupa de cores; fica elegante. Perfumarei o tempo. Ajuda-me. Agradeço.

Senhores do mundo, mudem os princípios. Só chegaremos todos ou nenhum de nós. Nada escapa deste mundo que nos pertence.

Pensa: esconder é pior.

Pensa: guardar não é preciso.

Pensa: doar é o mais leve.

Estou cansado de ser enganado.

Pedirei que me sigam; tenho um caminho que me leva. Se quiseres, é claro.

Vou te contar um segredo:

Tem uma boa companheira. Não importa a natureza; nascemos para ser dois. A natureza é assim, desleixada.

O festival de risos está chegando. Prepare tua risada; garanto a alegria do tempo. Bom demais.

Saberemos chegar se tua alma te der conforto. Agradecerás, confesso. Estarei por perto, posso me envolver.

Se não, ficarás solto, sem direção. Cuidado, podes cair. Quem te salvará?

Falece-se por fadiga do corpo e da alma, às vezes, sempre.

Farei de mim um atleta da mente. Não esmurrarei.

Gritarei sobre os ombros dos culpados, mundo afora.

Já preparei as palavras. Elas convencerão.

Se não confias, não conto mais.

Se confia, outra história virá para ser contada.

Alguém precisa bater nos portões do mundo. Ou ...

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