A Razão da Mentira

Menti. Achei o caminho longo, marcado por crueldade e pedidos de socorro.
Menti. Achei o caminho difícil, carregado de desespero e dor.
Menti. Minha aflição apavora-me; não posso perder o passo, pois a investida é longa.
Desfaço-me de todas as minhas virtudes e faço crescer as pragas da raiva, da covardia e da intolerância.
A mãe do pecado é a mentira, presa na consciência como um colar que esmaga minha garganta e me sufoca.
A mentira prende-se ao meu corpo, com um manto esfarrapado que protege os pecados da vergonha, deixando marcas forjadas para sempre, sinais de mentira sugados na pele que arde e exsuda.
Castiga o tempo e recolhe as pragas de uma despedida deformada pela intolerância, repintada pela cor da dúvida.
A mentira desafoga a pressa, refaz o prazer perdido, recruta prazeres desnecessários e obscurece o verdadeiro motivo, despercebido.
Mentir é a ausência do equilíbrio.
Mentir é uma suposta verdade sem lastro.
Mentir é o golpe felino da desonra.
A mentira resmunga por prazer, enxerga torto o direito alheio e escapa pela mesma porta da despedida, sem se despedir.
Sua razão reside no absurdo da ousadia de fazer prevalecer seu erro.
Para caminhar, são necessários os pés.
Para mentir, basta ignorar o castigo.
Se o princípio é mentir, o fim é a nudez.
Se for necessário mentir, é porque, na essência, é vergonhoso.
Se mentir for hábito, é porque a consciência perdeu a receita do equilíbrio.
Confesso que menti em algumas ocasiões, por tantos motivos que não recordo. Não me arrependi. Desumanizei-me.
O castigo foi assertivo e merecido.
Permita-me este erro.
Minhas mentiras foram perdoadas quando coloquei a censura como vigia, a vergonha como o sino que ressoa meu caráter quando necessário, para que a tolerância e a ética sejam respeitadas, sem dó nem piedade.
Hoje, vejo com tristeza o olhar descompromissado dos mentirosos. São primorosos nos disfarces que usam, escondem-se nas vestes e cospem no chão para não serem perseguidos. Apagam o caminho para evitar a tortura de serem acompanhados.
A razão da mentira corrige o “eu” para ser o “todo”. É debruçar-se em ouro e oferecer o descarte roubado, sem arte e com valor enganado. É doar pão azedo, mofado e ressecado pelo tempo àqueles cuja fome é tamanha que os obriga a fechar os olhos, privando-os do direito de escolher.
Grita, mentira mentirosa! Bruxos de alma desnuda, corram para seus tronos de miséria e aguardem o fim que merecem.
Não há razão para a indecência. Não há razão para a ganância. Não há razão para aqueles que usam o poder da mentira, para que a luz do sol brilhe apenas em sua imagem, sempre marcada por ódio e desprezo.
O mundo, ao longo dos anos, vem apagando as canções da gentileza, afogando os sonhos da esperança e rasgando os ditados da verdade.
Por princípios e direito, não há o que pensar ou fazer. O tempo está se esgotando, os delírios estão sendo agredidos. Seremos… a morte.
Que não dê razão por piedade, mas conceda a esta humanidade uma nova chance, fazendo os maus se desfazerem.
A razão da mentira é uma só: ser o que, por honra, mérito e merecimento, não te pertence. Suas derrotas resumem-se a uma só: a traição de pecar contra a solidariedade.
Que teu rosnar se afogue no pranto do desespero.
Que tua traição queime tuas mãos; inválidas serão.
Que tuas mentiras te marquem com as pragas do tempo.
“A razão da mentira não é razão, é só mentira.”
Compartilhar este poema
Avalie este poema
Seja o primeiro a compartilhar suas reflexões sobre este poema.