Deus pede Socorro

É noite. Durmo sereno.
Um sonho ilumina minha consciência com bondade.
Reclamo do frio, mas aceito. Os olhares inquietos das pessoas despertam em mim uma curiosidade enriquecida.
Vou prosseguir.
Um manto azul cobre-me cuidadosamente os ombros.
O frio passa.
Prefiro caminhar.
Sinto os pés molhados.
A relva é fina e macia. Ainda não compreendo os motivos do lugar e do tempo.
São belos. Observarei e guardarei na memória.
Sinto uma solidão na alma, sem receio. O caminho é delicado, e o perfume adoça minha mente.
Um riacho de águas claras indica-me um sentido. Quem sou, não sei. Seguirei.
Aperto o passo. O dia breve morrerá. Um abrigo para o corpo e a alma torna-se imperioso.
Uma alegria nos detalhes do que vejo aquece meu coração.
É um tempo de paz.
O perfume de alecrim brota; só preciso compreender a dádiva deste momento. Eternidade, creio eu.
Não encontro descanso. Deito-me ao relento. O tempo perde lentamente o matiz do claro, tendendo a um escuro suave.
Sem preocupação, adormeço. Já estava adormecido.
Um novo sonho me acompanha.
Tudo é delirante. Minha consciência brinca com minha visão; sinto-me fascinado. Tudo que passa pela minha mente, meus olhos mostram.
Estou alucinado; o momento é para ser guardado, uma lembrança a ser eternizada.
Gentil Senhor, de cabelos brancos como os meus, de olhos azuis, diferentes dos meus, sorri-me e expressa sua bondade. Usa uma túnica quase branca e tem gestos de um anjo.
Enfeitiçado por sua beleza, assusto-me de emoção. Sem receio, respondo-lhe com as palavras educadas do meu saber.
Fui polido pelos que me criaram.
Generosamente, Ele olha-me com um sorriso de uma lembrança querida. Por quê? Não sei.
Toca-me nos ombros e pede-me que o acompanhe.
Caminho, agora, por um labirinto de galhos verdes, retorcidos pelo tempo, mas belamente aparados como por uma mão divina.
Os rumos variam a todo instante. Sem temor de me perder, confio no Senhor à minha frente. Ele segue com tranquilidade.
Sem pressa, as escolhas do rumo são suas. Sigo, e sigo.
Num momento mágico, sua imagem dissolve-se no ar. Estou só. Penso e recordo quem me trouxe. Farei o mesmo: terei fé, confiança e coragem.
Lentamente, os galhos do jardim destorcem-se e encolhem-se. Não muito distante, o mesmo Senhor me espera.
Mansamente, com uma voz de afeto, comove-me com suas palavras: “Confia sempre na tua coragem, cumpre teu direito à vida e ajuda os que necessitarem.”
Seguimos. O tempo agora está nublado, com pouca luz. O chão é áspero, o cheiro, pouco agradável. A estrada divide o horizonte.
À direita, vejo tudo que conheço: amontoados, retorcidos, desgastados pela era. Ele, com tristeza, afirma serem restos que os homens não conseguiram devorar. Perder-se-ão no tempo.
À esquerda, vejo milhares de criaturas marcadas pela era, sem peso, de corpos ossudos, com olhos de agonia. Aqui estão os homens que o mundo rejeitou, desprezados pelos seus próprios.
Olhamo-nos.
Lágrimas caem, unidas numa face de emoção, dor e incompreensão. Molhadas as faces, a dor escondida ruge. São as costas das mãos que as enxugam.
É preciso refazer o princípio. O sentido da vida perdeu-se. Sobrou e faltou tudo numa mesma era. Desejos inquietos e vulgares maldisseram o espírito humano.
É a imagem do pecado em sua essência maior. Dói-me a consciência.
Seguimos. O tempo melhora. Vejo uma multidão que clama por desejos. Percebo que não existe uma boa escolha para todos. Espadas brilham e afugentam os já rejeitados pelo tempo. Abre-se um espaço, permitindo-nos passar.
É doloroso o que se vê.
Uma bela porta de marfim abre-se à nossa frente. Passamos juntos. Meu coração acelera; nunca vi nada tão belo. A beleza é infinita.
Gentilmente, como sempre, Ele me abraça e beija com ternura, cochichando todo o seu desejo: “Ajuda-me!”
Assusto-me.
Sou infinitamente pequeno, Senhor, respondo.
Acordo, ainda adormecido, e de novo acordo. O mundo agora é real. Por uma mágica da fé, estive num sonho dentro de outro sonho.
Tenho um dever a cumprir.
Desejo que minha alma possa suportar o pedido feito.
Creio que sim; não se solicita a quem não pode.
Aquele que pode, por dever, deve aceitar.
Minha percepção é de que Deus me pediu socorro.
Abençoado eu sou, e abençoado Ele também é.
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