A Confissão de um Pecado

Hei de carregar em mim o caráter do bem na contínua linha da vida.
Guardo, com respeito e dever, os elevados sentidos que a vida, desde cedo, me concedeu.
Hoje, lentamente, a vida me retira, sem explicação nem paciência, e depois, generosamente, perdoa-me pela bondade de sua criação.
Eu, por ingratidão e descuido, desrespeitei-a e, incorretamente, julguei-a.
Assim, confesso.
Meu sangue foi substituído pelo vinho da paz. Minha consciência, abençoada pelo sentido da lisura. Meus olhos, agasalhados pela luz da verdade.
Mesmo assim, traí.
Venho abraçando a vida com uma luta constante contra o tempo e suas vontades, que, às vezes, amargam minha alma, mesmo sabendo que isso é próprio de cada um de nós, no exato momento em que o tempo assim determina.
O tempo desvirtua-me e penitencia-me. Perco o sentido da sensatez. Sou castigado com dores.
Rompem-se as forças da virtude e o que me resta são migalhas de um sonho sem fim, coroado pelo desânimo das perdas.
A agonia corrói-me o peito.
Arrasto-me pelas perdas e, lentamente, parte dos meus sentidos esvai-se. Meus olhos fecham-se à luz e ao brilho, distorcendo, gradualmente, a clareza da distância e os contornos da realidade.
Os murmúrios se foram, chegam embaralhados com expressões do incompreensível.
Minha voz abriga-se no peito. Pouco me ouço, e poucos me ouvem.
Ingrato destino, lançaste-me ao Senhor do destino. Percebo que, mesmo servindo-o bem, ele não me poupou.
Vou pecar. Esta é a minha troca que, pela expressão da vida, julgo justa.
Que o belo se torne feio e o feio menos ainda lhe agrade.
Faz sentido?
Improvisarei pecados escondidos, que só minha mente pode decifrar. Terei mando para jamais ser julgado. Assim, farei o fiel da balança não oscilar torto nas regras do jogo.
Vou sorrir.
Perdi e ganhei.
Sou esperto.
Minha confusão é controlada. Alegro-me por dentro; encontrei minha justa causa.
Agora, sim, esfrego as mãos.
Meu sorriso alarga-se, e a gentil face do meu infiel julgamento permite-me demonstrar minha força.
Fiz valer meu juízo.
Agora, tudo é primoroso.
Assim vivi, assim tentei viver e assim me enganei.
Sou um despreparado. Minha agudeza de vida é introvertida, desgovernada pelo juízo mortiço do meu entendimento.
Confesso que pequei por não compreender que, por trás de cada moeda, outra face expõe a diversa metade do seu valor.
Ó, Senhor, tiraste-me emoções com a delicadeza do gênio da bondade; devolvi-te com a bestialidade do meu egoísmo escusado.
Não percebi que assim não era necessário.
Minhas forças deram-me coragem para enxergar o desacerto e sensibilidade para as palavras que aqui aventuro, manchando, com lágrimas de vergonha, as folhas deste poema.
Minha confissão alivia-me. Entrego o que de mim sobra para servir àqueles que ainda não colheram a devida parte que, por direito, lhes cabe.
Sou um pecador, mas não sou covarde. Minha confissão torna-me mais nobre, mas ainda sou culpado.
Terei de renunciar a parte da minha fortuna para devolver o que, por ilícito, tomei.
Permito que se retire o que por direito tens.
Esta conta é paga com a moeda que a eternidade guarda, agasalhada pela nossa incompreensão — meu tempo de vida.
Assim aceito, assim peço.
Abraço minha confissão para expulsar meus pecados.
Oculto minha vergonha para revelar meu arrependimento.
Engulo minha ignorância para desfazer meu erro.
Aqui deixo registrada a confissão de um pecado — a traição.
Que a soberba seja esmagada pelo sentimento do perdão.
Que a vergonha seja acolhida pela face da gratidão.
Que a dúvida seja perdoada pela beleza da bondade.
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