Irmão do tempo

Você nasceu no mesmo segundo que eu
mas eu vim primeiro
e você ficou lá atrás preso no espelho
olhando minhas costas enquanto eu corria
eu gasto os dias que posso do meu jeito
você guarda os restos que sobram
eu queimo as horas que quero
você sopra a cinza para dentro de um vidro
às vezes, quando eu grito
você escuta em silêncio
quando eu choro
você guarda as lágrimas numa ampulheta
e depois deixa cair uma a uma
para me lembrar que o tempo não perdoa
nem mesmo o próprio irmão do tempo
eu corro apressado descalço sem cuidado
você caminha devagar distraído
eu quebro portas trancadas pelo tempo
você fecha as janelas por dentro por medo
às vezes nos encontramos distraídos
numa esquina que não existe quase sem luz
eu suado sujo quase morto de cansado
você limpo calmo com o relógio parado no pulso
e a gente se olha sem falar não precisa
porque falar seria admitir
que um de nós está errado
e nenhum dos dois aceita perder
eu te odeio acho que sempre
porque você é o que eu poderia ter sido
se tivesse tido paciência
você me odeia
porque eu sou o que você nunca terá coragem de ser
irmão do tempo
meu reflexo é mais lento, sou assim distraído
meu carrasco mais gentil
meu único juiz que nunca condena
apenas espera e ri covarde
eu corro sempre cansado
você espera às vezes sem motivo e corre também
eu morro uma vez só
você continua sempre só
e quando eu for só osso e nome esquecido
você ainda vai estar lá rindo
com o mesmo rosto
ela calma com muita raiva
contando os segundos que eu desperdicei
um a um
como quem conta moedas de um tesouro de pouco valor
que nunca foi dele
irmão do tempo
me perdoa se não existir dor
ou me mata logo se deseja
porque viver sabendo que você existe
é a única eternidade
que eu não suporto
é o único desejo
que me maltrata.
Compartilhar este poema
Avalie este poema
Seja o primeiro a compartilhar suas reflexões sobre este poema.