Irmão do tempo

Poema 30 de 73
Irmão do tempo

Você nasceu no mesmo segundo que eu

mas eu vim primeiro

e você ficou lá atrás preso no espelho

olhando minhas costas enquanto eu corria

eu gasto os dias que posso do meu jeito

você guarda os restos que sobram

eu queimo as horas que quero

você sopra a cinza para dentro de um vidro

às vezes, quando eu grito

você escuta em silêncio

quando eu choro

você guarda as lágrimas numa ampulheta

e depois deixa cair uma a uma

para me lembrar que o tempo não perdoa

nem mesmo o próprio irmão do tempo

eu corro apressado descalço sem cuidado

você caminha devagar distraído

eu quebro portas trancadas pelo tempo

você fecha as janelas por dentro por medo

às vezes nos encontramos distraídos

numa esquina que não existe quase sem luz

eu suado sujo quase morto de cansado

você limpo calmo com o relógio parado no pulso

e a gente se olha sem falar não precisa

porque falar seria admitir

que um de nós está errado

e nenhum dos dois aceita perder

eu te odeio acho que sempre

porque você é o que eu poderia ter sido

se tivesse tido paciência

você me odeia

porque eu sou o que você nunca terá coragem de ser

irmão do tempo

meu reflexo é mais lento, sou assim distraído

meu carrasco mais gentil

meu único juiz que nunca condena

apenas espera e ri covarde

eu corro sempre cansado

você espera às vezes sem motivo e corre também

eu morro uma vez só

você continua sempre só

e quando eu for só osso e nome esquecido

você ainda vai estar lá rindo

com o mesmo rosto

ela calma com muita raiva

contando os segundos que eu desperdicei

um a um

como quem conta moedas de um tesouro de pouco valor

que nunca foi dele

irmão do tempo

me perdoa se não existir dor

ou me mata logo se deseja

porque viver sabendo que você existe

é a única eternidade

que eu não suporto

é o único desejo

que me maltrata.

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