Uma Noite

Agora é o início de uma noite qualquer.
A escassez de luz distorce traiçoeiramente minha visão, confunde-me, distrai-me. As estrelas, poucas, ainda perturbadas como eu, espiam-me. Não me importo.
Estou só com a natureza e agradeço o momento. Ela supera minha imaginação e adormece minha alma com bondade e paz.
Desprotegido do medo, ajeito-me.
Livre do tempo e do espaço, não escondo os segredos expostos nesta face de anos vividos; são todos queridos, espalhados em mim pela genialidade da vida.
Caminharei, só, envolto pela neblina que rasteja com as folhas menores, parceira que se junta à noite e, levemente, abre seu encanto, fazendo-me pensar.
Início um caminho folhado, guardado na mente há anos, meu parceiro e testemunha no vai e vem da vida.
Caminho calmo, com os risos dos pequenos galhos tocando meu rosto frio pelo anoitecer.
A saudade fere meu coração, e os desejos enterrados no passado, que por destino não pude rever, enchem carinhosamente meus olhos de lágrimas.
Galhos curvados pelo vento constante aparecem junto à minha sombra e, decididamente, atropelam-me sem ferir. De tonalidade escurecida, guardam minhas histórias; eu os vi crescer.
Esses sentimentos espreitam-me discretos, mas atentos aos meus movimentos. Cautelosamente, com delicadeza, guardo-os. Sigo.
A noite chega, como de costume, sorrateira. Traz consigo, por delírio, um perfume agradável. Os dizeres do tempo surgem, vontades guardadas cobrem meus olhos.
Sigo a trilha. Alguns ramos tocam-me sem ferir; a sensação é boa, como um carinho sem compromisso. Estarão me dizendo algo?
Sem medo, passo a passo, atravesso este pequeno jardim, abrindo passagens que se tornam, lentamente, mais fáceis, mais macias.
As estrelas, agora, brilham como pequenos sóis que piscam, quase mágicas.
Escuto pássaros noturnos — coruja, sabiá-laranjeira, urutau e outros — que, cantando, insistem em buscar a parceira.
Alguns ruídos são incompreensíveis, mas agradáveis. Sigo sem proteção, sem medo.
O chão está mais firme, a relva mais suave, alisando mansamente meus pés. Há pouca luz; não me perturba, estou em paz.
Caminho sem cuidado, mas percebo os detalhes, uma visão sem enxergar que até então desconhecia. Genial.
Árvores frondosas, de troncos largos, surgem à minha frente. Suas raízes elevam-se do chão, criando, caprichosamente, berços largos que, expostos, convidam-me amigavelmente para um descanso.
Aceito, encosto-me, fecho os olhos e, sem perceber, adormeço.
Uma conversa querida escuto, com música que compõe pacientemente uma delicada harmonia com o lugar — nobre, perfumado, teimosamente belo, surgindo como por milagre.
Vejo, sem exceção, todos que partiram sem meu consentimento de afeto — pais, família, amigos, meus queridos animais. Todos juntos, numa festa de risos e tolices, abraços menores e maiores, beijos e apertos de mão.
Cada um traz um detalhe que me faz lembrar a importância do tempo compartilhado. Fantástico, são minhas percepções.
Continuo me divertindo. Beijos novamente, abraços que me permitem sentir o perfume de cada um, amassando com carinho os menores.
Retribuições há com serenidade. Falamos de tudo: da saudade, da alegria, de memórias esquecidas.
Não percebo nada de diferente, apenas a enorme alegria, e não me vejo diferente, sem aflições. É mágico.
Meus pés tocam o chão; não percebo.
Divina noite, reúne todos os amados. Agora, pertencem-me.
Não questiono, apenas partilho essa alegria que, de tanta intensidade, toca-me as mãos como sinal de agradecimento, com dedos entrelaçados.
As estrelas continuam belas. A lua é engolida por uma densa nuvem. Meus pensamentos gritam de alegria.
Meus olhos transbordam de felicidade e choram, despercebidamente.
Mas, sem precisar medir o tempo, não se mede o tempo no sonho, percebo, lentamente, que alguns já não estão presentes.
Procuro-os e não os vejo. Um a um, vão-se, sem motivo, sem despedida, tornando-se brisas que se misturam ao ar como perfumes.
Quando percebo, estou só. Continuo rindo, pouco. Se foram, voltarão; se não voltarem, eu irei. Esperarei o tempo por explicações.
Calmamente, observo todos os cantos. Foram-se. O coração descontrola-se, o peito pesa, o sentido das coisas escurece e o frio chega mais forte, com uma neblina mais densa. Meus olhos embaçam, pouco.
Despercebido, acordei. Sonhei.
Os primeiros raios do sol nascem, trazendo um novo dia. Lembrei-me de tudo e, com risos, agradeci. Percebi que aqueles em festa, alegres, me esperam.
Não há o que temer.
Deixo a vida seguir. Tenho calma. O coração que hoje bate será o mesmo que, amanhã, inerte, me fará rir, flutuar ou virar perfume.
O dia passou inquieto, sem detalhes, nada para importunar.
Agora, ela chegou, de novo, com o mesmo costume de sempre.
Vou me juntar...
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