O Pensamento

Poema 27 de 73
O Pensamento

Recolho-me em minhas histórias.

Penso, logo escrevo.

E a pena se move, agitada.

As palavras soam, sinfonia de súplicas,

de gritos de angústia, de gestos de adeus.

Olhares turvos de traição e por que não,

raros risos de rasa alegria.

No peito, o ódio não faz morada.

Aguardo apenas que a alma das minhas recordações,

clame por paz, por prece, por perdão.

Tenho o dever de defender,

as palavras que ecoam da minha boca,

sem demora ou covardia.

É tudo que me resta do tempo que gastei,

que amei — do tempo que o vento

veloz levou e transformou,

caprichoso, em lágrimas que lavam meu rosto,

e depois despencam, doces e desfeitas,

aos meus pés.

Foi na forja febril das minhas virtudes,

que os pensamentos se moldaram,

sólidos, às minhas puras verdades.

Tenho pressa.

O sol já se some no horizonte.

O céu de outono sangra, silencioso,

em tons rubros, alaranjados.

Uma lua minguante o saúda.

Eles se olham, se medem, mas não se tocam.

A noite nasce.

Acredito nos sonhos que a noite tece.

Eles me levam a lugares que nunca pisei — memórias mal guardadas, soltas, presas ao acaso,

que desnudam minha alma sem pudor

e revelam quem realmente sou.

Quando os raios da manhã rompem,

são só delírios fragmentados que acordam ao amanhecer

e renascem, revigorados,

com as esperanças do novo sol nascente.

Caminho pela rua das almas,

no bairro dos desejos proibidos,

movido apenas pela ânsia de sobreviver

e pelo medo mudo da verdade —

que invade minha consciência,

e me afoga em agonia.

Meus olhos se cerram, mas continuam

a engolir a realidade.

Os pensamentos se misturam, se fundem,

presos aos sentidos que o tempo semeou

na sombra da minha dúvida.

Confio ao vento os pensamentos proibidos,

para que ele me devolva,

em sussurros, os pecados esquecidos.

Preciso compreendê-los, um a um,

quando a hora chegar.

A acusação dos erros me persegue, voraz.

Corro suado, cansado, ofegante, sem forças.

Minha alma jaz em ruínas.

São as traições que me seguem e servidas estão.

Como podem duas vidas

— A do corpo e do pensamento —

rosnar, ríspidas, uma contra a outra,

no espaço suspenso entre o real e o sonho,

distraídas apenas pelos tropeços turvos dos pecados,

e me levar ao limiar da minha loucura?

Perdoe-me se pareço obscuro.

Seguirei a lógica das minhas fantasias:

pobres em respostas fáceis,

rasas, ricas em detalhes densos para quem souber sentir,

para quem souber ser.

Decido mudar.

Confiarei a vida ao sorriso,

mesmo que seja o sorriso sereno do meu afeto,

me pedindo paz, comigo mesmo.

Quando a vontade vacilar, deixarei os sentimentos se assentarem.

Com o cansaço de tanto pensar,

ajoelhar-me-ei, para compreender melhor

e sentir o coração serenar, na manhã mansa,

na paz da minha pequena existência.

Exponho aqui os valores do meu eterno pensar.

Podem ser desprezados, dispersos, mas não esquecidos —

momentos mudos desta vida

que terminará com a extinção do meu tempo.

Tive um sonho que me acolheu e soergueu.

Nele, aprendi a viver sem chorar por causa vã,

sem a fraqueza da piedade.

Usei a astúcia sutil de uma vitória segura,

confiante de ver o tempo passar, junto aos meus pés.

Esse sonho me deu valor, me fez ver.

Emergi.

O tempo tece minhas esperanças, mas em troca rouba

minha pouca energia e o que sobra é um pouco do nada.

Talvez meu pensamento seja apenas a energia que o tempo tomou, sem que eu percebesse.

Se me acompanha, fique atento: eu me escondo da luz.

Carrego fantasmas, fardos pesados da minha memória passada.

Visto uma fantasia que me vela, que me oculta até o momento em que eu escolher revelar a verdade da minha pequena e passageira existência, que insiste em ser sentida.

Ou então,

preciso me afastar do tempo — só não posso ser consumido por ele antes de começar a pensar na minha eternidade.

Minha vida é uma obra-prima, uma prece.

Minha noite é feita de paz,

sem clarões de medo, sem clamores.

Apenas a delicadeza do meu pensamento me cerca e me abraça.

Tento prender o tempo que segue com uma velocidade que me atordoa as ideias.

Os espaços me apertam, me asfixiam, mas têm de ser assim.

Minhas ideias, às vezes, parecem inúteis, mas hão de me devolver

o tempo perdido — é o que preciso, é o que parece justo.

Ainda assim, trago aos olhos cobertos de dúvidas algumas imagens que se misturam na minha mente, perdidas na escuridão do passado.

Preciso decifrar, preciso desvelar, fazer luz nessa mente desgastada e perdida.

Preciso reagir ao sofrimento.

Não sei mais se é o sonho que me protege ou a vida que me atormenta.

Entre os dois, espero pelo tom honesto da realidade.

Ela não mentirá, não me negará, nem mesmo sobre o meu verdadeiro significado.

Vem, pensamento:

tu és a razão do que sou.

Vem, realidade:

tu és a razão pela qual existo.

Vocês se misturam, se afogam, se ruminam, se consomem.

Os tormentos de vocês já não são mais os meus.

Tempo, ladrão fiel e constante da minha existência, pois sim.

Ainda assim, aprecio minha sensibilidade neste instante

de aflita aflição, neste rosnar sempre agressivo contra ti.

A magia do meu ser me protege.

Busquei na alma a gratidão que me abriga,

que me ampara sob o manto sagrado da bondade, proteção para a eternidade.

Pensamentos reais e irreais

se abraçam,

se beijam,

se buscam.

As deliberações pertencem a todos.

As minhas tornei próprias e com estas palavras, o meu coração cantou e minha consciência consentiu.

Agora, minhas palavras ganharam o direito de apagar meus pecados e gritar meus desejos.

É o perdão que a consciência, plena da verdade, conquistou.

Por isso, afirmo:

o tempo produz o pensamento;

o pensamento consome a energia;

a energia cria a existência

para que a existência

se torne consciência do próprio tempo.

Resta agora uma história que se molda ao tempo,

com um “sim” sonoro que encerra esta fase da minha vida.

A outra segue, sem vento nem sombras.

Eterna.

Por quê?

Verdades fáceis não mudam ninguém.

Só quem pensa profundamente chega à essência da verdade

e encontra, no silêncio da noite que já não teme,

a luz quieta e calma que sempre esteve

dentro de você e de mim.

Na consciência, o sofrimento nasce,

na esperança, ele abranda,

no tempo, ele sossega

e na eternidade ele desaparece.

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