A Herança do Tempo

Onde guardo a história da minha vida, que meus olhos testemunharam e minha mente preservou pelo dever de lembrar?
Sou, por herança, pequenos pedaços de muitos que vieram antes de mim, oferecidos como a harmonia da vida que, com graça, criou-me.
Eu, por desejo, guardei-me para ser vivido na maestria do destino que, por direito, decidirá se tenho ou não esse privilégio.
Vim carregado com legados já preenchidos há tempos com todas as emoções, lavrados pela beleza da criação.
Sou a oferta da evolução que escolhe e ordena se o futuro repetirá ou não esse ato de benevolência.
Tenho memórias quase desfeitas na mente, obscurecidas pela idade, com ideias nubladas que compõem a graça da minha história. É preciso esforço para relembrar esse passado que teimosamente se esvai.
Lembranças desalinhadas pelo tempo, mas todas abrigadas no mesmo ninho da memória chamado passado.
Relembro os caminhos traçados que percorri em diferentes fases da minha vida — alguns mais difíceis, outros nem tanto. Não posso dizer por que os escolhi ou desejei; foram escolhas da ocasião.
Sou um poeta de mim mesmo, transcrevo a vida com o sorriso do mérito, se fizer jus, com ou sem os erros das dúvidas, e curvo-me em gratidão pelas mãos que me guiaram para o caminho do bem.
Agradeço a herança que me foi legada. Suas lições equivalem aos meus atos. Acreditei e confiei nelas.
Tenho um olhar do tempo, carregado de segredos e sentimentos que, dia após dia, somaram e subtraíram meus valores, despertaram ou adormeceram meus desejos.
Tornaram-se, ao longo do tempo, reflexos dos meus pensamentos e atitudes.
Uma escada com os degraus da vida permitiu-me compor a história que preservo para o dia da despedida. Contarei, sem desatino, com a magia de um trovador.
Vivi e vivo confortavelmente, sem pressa, livre de regras, carregado de cortesia e com longas memórias a serem contadas, com palavras para aqueles que me quiserem ouvir, trazendo a alegria que lhes ofereci.
Não consenti que a vida me prendesse num círculo vicioso.
Empurrei a alma e os desejos para novas emoções com outros destinos, em linhas retas e gramadas com as pequenas folhas da esperança e do prazer.
Criei detalhes, resgatei regras perdidas, delineei sonhos despercebidos. Juntei sentimentos para jamais perder o direito de sorrir. É preciso cultivar o hábito de sorrir para ser feliz.
Fiz crescer paixões, reuni pedaços perdidos pelas emoções, defendi verdades e criei valores. Bons descendentes permanecerão.
Não sou mágico.
Minhas ilusões são criadas e premiadas pelas riquezas que alegram a todos, pela doçura de uma realidade que os olhos apaixonados me oferecem, e eu a devolvo.
Prossigo nesse caminho simples, talhado numa relva de beleza e maciez, para imprimir minha imagem em folhas de pergaminho, que o tempo hoje guarda carinhosamente e amanhã, com o mesmo desatino, apaga e rasga.
Tenho orgulho.
Fiz almas chorarem de alegria, amores despertarem como os raios do sol e amigos me abraçarem pela alegria de sermos iguais neste tempo que não se repete.
Filho inquieto, amoroso, cheio de surpresas, criado com cuidado, sem ouro, com perfume, sem teatro, com aplauso, sem o vício da mentira, com a ternura do valor das verdades.
Ainda tenho caminhos a percorrer, talvez os mais difíceis. Mas carrego a vantagem da experiência que conservo na memória e utilizo nos dias desafiadores, quando, com a luz do sol, desperto e me suavizo.
Agora é a hora de poucas portas se abrirem e muitas se fecharem, regras da vida arquivadas com os mistérios do mundo.
O tempo é um senhor sem tempo, que vive com tempo e cujo tempo não se conta.
Tempo, carrega-me por prazer, permita-me ser teu companheiro por delicadeza. Tu me abandonarás não por maldade, mas por compreender que a escola que me deu os ingressos da chegada também distribuiu os da partida.
Uma nova era virá e novos caminhos serão necessários; novos desafios me perseguirão.
Sem medo, sem restrições, sem arrependimentos, seguirei por esse caminho que julgo ser o único capaz de trazer e refazer todas as lembranças perdidas.
Orgulhoso e envolto no manto da minha história, sigo sempre em frente. Histórias dependuradas nos ombros da minha alma, passivamente me distraio e sigo como parte do jogo a ser jogado.
A herança do tempo é a história a ser escrita pelos que ficam: para rir ou chorar, entender ou contestar, desfazer ou guardar. Quem sabe, saberá.
A herança do tempo é o espelho da alma, fortalecida pelo destino, recusada pela incerteza e adorada pelo velho tempo.
Sou uma faísca do tempo, perdida neste tempo sem tempo.
E quando a última chama se apagar, não será o fim, mas a continuidade de um sopro que se espalha em outros corpos, em outras almas, em outras histórias.
Sou feito de ecos e silêncios, de passos que se perderam na eternidade e de caminhos confusos que me levaram ao princípio da minha nova existência.
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