A Dor

Poema 23 de 73
A Dor

Estoico me tornei. O tempo o pediu.

Dores ainda sentirei. O tempo as ofereceu.

Sereno, sempre serei. O tempo o exigiu.

Fere-me a alma; sua impiedade não tem limites.

Desperta minha ira, adormece minha razão.

Tira-me a paz e covardemente a ignorância.

Dor, direito sobre o corpo que distorce a elegância.

Dor, às vezes, é apenas o vento da dúvida; outras vezes, a certeza do desastre.

Dor, sê sonolenta, branda, descalça, não tenhas motivos para exibir o sofrimento de que és capaz.

Tua proeza é conhecida, tua falta de delicadeza já é notória.

Dor, conheço teu poder; não há por que erguer teu manto de sofrimento, já visível nos olhos de quem o sente.

Dor, que sobrevives da angústia, assentada em teu feitiço, não retires sem necessidade o semblante de uma vida que ama e reza.

Dor, tuas vestes disfarçam-se na luz do tempo, teu direito esconde-se na sombra do oportunismo, tua intensidade revela-se na dimensão do sofrimento.

Dor, teu rumo é certo. Fica à deriva do meu caminho; tuas agulhas são traiçoeiras.

Recolhe tuas vontades; o som de tua raiva já é conhecido, e não serei eu o rei que te coroará.

Dor, sentimento vestido de branco e preto, com a face do santo e do diabo, que castiga com esporas de espinhos e fogo.

Dor, sentimento sem dono, sem motivo, sem tempo; és um fantasma da miséria, um anjo de olhos vermelhos.

Teu segredo é fazer chorar aqueles que, sem perceber, acolhem-te pelo prazer de ver sofrer.

Dor, teu nome arde, foge do princípio da necessidade, rouba o sentido da alegria e cria a ilusão da tristeza.

Dor, peço-te que sejas justa; se preciso for, saberei suportar!

Sabes que és mais forte; não uses teu poder com soberba. Toca-me com mansidão para que minha alma não se aflija.

Dor, se um dia eu perguntar a Deus o motivo da tua existência, que Ele me responda que te criou para nos lembrar que somos apenas um pequeno exemplo de Sua grandeza e que, um dia, o sofrimento será a recompensa pela dádiva de uma vida de paz.

Dor não é a face cruel de Deus; é um gesto de sabedoria para nos lembrar de quem somos e a quem pertencemos.

Compartilhar este poema

Avalie este poema

Comentários dos Leitores

Seja o primeiro a compartilhar suas reflexões sobre este poema.