Quem me Escuta

Poema 22 de 73
Quem me Escuta

Vivo entre o real e o irreal. Acalmo minha mente quando os pensamentos fazem nascer as poucas palavras que, teimosamente, insisto em submeter a juízo, se justas comigo forem.

Não sei, para esta minha alma, por vezes incompreensível, qual é o seu valor, pois não fui eu quem a criou.

O imaginável me faz sorrir. A verdade de hoje me deixa confuso. Do tempo, não posso fugir.

Preciso encantar a vida para ela encontrar as palavras que escrevi, ao amor e ao acaso, guardadas por um anjo amigo de asas abertas e douradas, por motivos que desconheço.

Deixo-as ao vento, se essa for sua vontade.

Um amargo sentimento não terá razão para compreender que o mundo já se desvirtua.

O que preciso saber é por que entender o que não há de ser.

Já não sei se devo dizer. É o que me resta, ainda abrigado sob as vestes do meu saber.

Escondo-me num espaço que pouco compreendo, mas aceito.

O sorriso torna-se, a cada dia, mais difícil; as ideias não são claras, mas são brandas e servem como oferendas aos limpos de coração.

Sigo, defendendo ao vento minhas palavras. Joguei-as ao longe, pois não tenho onde deixá-las, mesmo sendo eu o pouco que sou.

Escrevi palavras para poucos, porque ninguém as pediu. Ainda assim, assumo o risco pelas palavras que escrevo; elas podem ser minha vergonha, e, então, minha vergonha será meu destino.

Leiam-me, critiquem-me. A culpa esconde a consciência que intriga e amedronta.

Perdoem-me por não ter a sensibilidade desejada, limitada pelos meus sentidos, que não conseguem acender as chamas das emoções celestiais.

Por merecimento, não me terão; nasci para menos.

Feliz, estou com o pouco que tenho e com o pouco que sei. É preciso entender que a magia da genialidade não brota em terra infértil; aos nobres que a ela pertencem, às margens dela vivi.

Respondi a alguns, confundi outros, envergonhei poucos, pois isento não sou da mentira. Mas amor aos princípios sempre guardei, herança do amigo pai que recebi.

Esses ombros que me sustentam, meus olhos não veem; os sorrisos, jamais os percebi. Mas seu coração se ajeitou e, com delicadeza, me beijou.

Caminhos guardados descalçam-se de aplausos.

Elevo os olhos quando os ouvidos percebem que a sinceridade cruzou meu caminho e, com doçura, me sorriu, trazendo a lembrança do agradecimento que o anjo amigo entregou ao Senhor.

Minhas palavras são as que me levam ao meu destino.

Minhas lembranças são as histórias que posso contar. Meus sentimentos são os gestos que guardo para aqueles que me pedirem.

Aqui estou. Aqui ficarei. Ausente, não serei, se o desejo assim pedir. Se me pedires para ir embora, eu irei.

Não posso mais gritar; minha voz já se foi.

Não sei ferir; minha consciência não permite.

Não sei mentir; minha razão me castiga.

Escrevo porque acalmo minha alma, enriqueço minhas emoções e adormeço minha mente, dando-me o direito de levitar.

Um dia, pararei. As palavras sumirão, as ideias serão pequenas, não mais merecerão ser ditas.

Guardarei comigo todas as emoções que tive.

Se quiseres compartilhá-las comigo, sem o dever de orar, de coração as doarei.

O que escrevi foi para rir e chorar.

Não escolhi dizer o que se quer ouvir, mas escrever o que se pode ouvir.

Aqueles que me escutam, tomem as palavras de que precisam, desprezem as que lhes convêm.

São vossas estas palavras que, sem maldade, escrevi e, com respeito, vos ofereci.

Aceitá-las é aceitar o melhor dos meus sentimentos.

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