A Vida Invertida

Poema 21 de 73
A Vida Invertida

Ilusões perdidas, maldades dos novos tempos que exibem e gritam o contrário das preces de um Cristo que se foi, perdido no tempo, traído pela arrogância dos novos reis.

Rasgam a doçura, cospem no costume, gritam maldições contra a herança e afogam a inocência dos princípios.

Infâmia do desejo da raiva, ladra da dignidade, rasteja com glória pelos escombros da decência.

Novo sinônimo de glória e poder, fruto da ignorância que sobrepõe a ternura de uma primavera ardendo no fogo da maldade.

O princípio é o fim, o desnecessário é urgente, o cretino tornou-se belo, e a impureza desta nova ignorância é a certeza da vitória da soberba e do desafeto.

A razão e a fé se desfalecem, traídas por uma falsa liberdade, maldosamente escondida entre a anarquia e a perda da moral.

Ó, Vida invertida… que sangue escolheste para teu propósito?

Que água bebeste para saciar essa sede que amarga com ganância tua mente?

Escolheste um riso sem alegria e um sorriso sem o semblante da verdade. É o retrato da estupidez.

Chora-se num canto, ri-se noutro; alguns erguem os braços por socorro, outros escondem a mão da ajuda; pés que escorregam pelo medo da queda, pés que sapateiam disformes no show da vida, embrulhados nos desejos de majestade e exceção.

Perdeu-se o encanto.

É um delírio sintético, um sonho contaminado.

Tua alma cegou teus olhos.

Tua razão se desfez com o vento.

Teu canto distorce a melodia da felicidade.

A inclusão do medo com a exclusão da justiça, a inclusão do mal com a exclusão da bondade, a inclusão do obsceno com a exclusão da inocência, a inclusão da libertinagem com a exclusão da moral.

Teu declínio há de chegar; tua vergonha ultrapassa o sentido da vida. Vida invertida!

E quando teus olhos se abrirem para o vazio, verás que o ouro que perseguiste não passa de pó, e que o trono que ergueste não passa de ruína.

O silêncio será teu cântico, e a solidão, tua coroa.

A vida que inverteste não te dará repouso; será apenas o eco da tua própria soberba, repetindo sem fim o som da tua queda.

O tempo, que antes te servia, agora será teu carrasco, marcando cada instante com a lembrança daquilo que negaste.

E se ainda ousares sorrir diante do abismo, será um riso quebrado, sem alma, sem verdade.

É bom lembrar, que a eternidade não perdoa a mentira, e o destino não absolve a arrogância.

É bom lembrar, que somente irá restar a sombra do que foi, esquecida no labirinto da tua própria escuridão.

Lembre-se: quando um dia, ao acordar, as trevas da eternidade forem tua companhia, o cheiro do enxofre, teu perfume, e a luz negra do abismo, teu guia, ajoelha-te e chora à porta da tua nova morada.

Chegaste.

Entre e verás o que te espera.

Mas se, entre as ruínas, ainda houver uma centelha de humildade, ela poderá reacender o fogo da verdade.

Pois até na noite mais escura, uma chama pequena consegue iluminar o caminho perdido.

Se teus olhos cansados se voltarem para o horizonte e tua alma se abrir ao arrependimento, verás que a misericórdia não se extinguiu.

A bondade, embora ferida, aguarda silenciosa para acolher quem ousa retornar.

E quando a vida deixar de ser invertida, quando o amor recuperar seu lugar e a justiça erguer-se novamente, então o canto da felicidade voltará a soar.

Não como delírio, mas como verdade; não como sombra, mas como luz.

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