Nós Mesmos

Um sonho esquecido é um sonho que não volta.
Perdeu-se no tempo.
Vidas esquecidas são vidas perdidas, recolhidas para um novo ciclo. Perderam-se no tempo.
A vida é o dia e a noite de todos nós, sem início nem fim, um ciclo interminável da condição humana que se repete com a precisão da magia e da bondade do tempo.
Vida, guardada sob o manto do destino, com pequenas janelas da consciência para refletir seu propósito, segue empurrando os anos com as lanternas da verdade, com diferentes cores para um mesmo fim.
No início, todos somos partidos em iguais pedaços, colocados em desordem, criados em teias de diferentes mosaicos, subsistindo por razões que o acaso desconhece.
Na ordem está o caos, o segredo dos fatos. No caos, a chance do milagre.
No princípio, tudo se mistura — ordem inversa, posições contrárias, um destino sombrio para o querer da vida que, vagarosamente, ganhará luz e, pouco a pouco, será contada e distraída pela linha do tempo.
Nesse teatro que expõe a condição humana, tudo se sabe, se tudo for considerado; tudo se considera, pois tudo faz parte de um só ser.
Assim nascemos nós, livres, calmos, limpos de pecados, para um mundo de surpresas que nos concede o direito de escolher os caminhos que seguiremos.
Tudo estará disponível, mas é preciso sorte, vontade e persistência nos anos que virão.
Até que, um dia, uma magia que se esconde covardemente entre os galhos do paraíso nos desgoverna: é a vaidade.
Pecado maior da alma, expressão máxima da inferioridade, difícil de enfrentar, traiçoeira, sem piedade.
Vaidade, o ferro que fere a alma para que saibas quem és.
Essa marca não será permitida; alma marcada, alma desinteressada, foge do princípio da vida escolhida.
Todos nós teremos um mesmo fim, sentiremos um dia a mesma dor. Fecharemos os olhos no nosso instante, para um tempo que aflige a mente, que não é compreendido nem medido.
É o sonho do abismo, a face do fim, o começo de um novo ciclo.
Encantados ou não, brilhantes ou não, santos ou não, verdadeiros ou não, ri se puderes e quiseres. Tudo é igual — o tempo nos recolhe e, com esmero, nos devolve ao princípio, todos com perdão.
O que desaparece recomeça; nada pode ser perdido.
Salva-te, se quiseres; as exceções existem. O peso da tua gratidão te ajudará a encontrar um ninho de plumas na estação da eternidade.
Aqui, mentiras não se escondem, nada pode ser encoberto. Tua consciência é transcrita na linguagem dos sábios. Não há esperteza.
Somos nós, todos somos nós e nós somos todos. Tudo pode ser visto na janela do tempo, no exato momento em que a vida assim o permitir.
Tu me verás, e eu te verei.
Todos nós, sempre rindo de nós mesmos, pobres somos nós, sempre seremos o eterno teatro em que cada um, em seu momento, sobe ao palco.
Palmas de alegria ou gritos de pavor serão ouvidos.
Somos todos nós, eternos palhaços de nós mesmos, com os quais a eternidade brinca e ri, para o delírio do criador que incansavelmente repete seu banquete, na esperança de um dia ser compreendido e assim nos salvar.
E, quando o tempo nos recolhe, não o faz com crueldade, mas com a serenidade de quem sabe que nada se perde.
O que desaparece recomeça, o que cai se levanta, o que morre renasce. Somos nós mesmos, eternamente repetidos, eternamente reinventados, eternamente lembrados.
E nesse eterno retorno, talvez esteja a chave da salvação: compreender que o fim é apenas o início, e que a dor é apenas o preço da vida que insiste em se renovar.
Viemos pela dor e com a dor partimos.
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