O Inferno

Poema 18 de 73
O Inferno

Garras escuras e encurvadas rasgam um chão sujo, empoeirado, debruçado sobre uma neblina carregada de agonia e dúvida.

Ondas de poeira inquietantes abafam os poucos raios que, aflitos, insistem em brilhar. É um tom de medo que se percebe, como fantasmas.

Sapateiam atrás de mim, e eu os escuto, num ritmo forte e apressado.

Pés distorcidos e ruidosos me seguem com ruídos arrastados e tenebrosos. Neste caos em que me encontro, perdido, é preciso ter calma.

Pobreza extrema, sujeira encardida e nervosa impregnam meu olhar.

Um caminho escurecido amedronta a alma e congela meu espírito inquieto.

A face molhada pelo suor do desespero me incomoda profundamente.

O odor, o calor e a angústia alimentam minha raiva, perturbam o que vejo. Um medo nasce por inteiro, nutrido pelas dúvidas do lugar.

Nada ao redor faz sentido. Tudo é feio, estranho, sem cor definida.

Formas distorcidas de nós mesmos, moldadas ao longo dos milênios, surgem nos murais escurecidos.

A escuridão não é completa. Falta luz, falta decifrar o lugar.

Preciso saber onde estou para escolher o rumo certo.

Agora, qualquer direção é incerta.

Fui lançado traiçoeiramente pelos braços enferrujados da maldição.

Atormentado pela perda da razão, espero ser ouvido num julgamento torto, que pouco me interessa e nada me abala.

Tenho minhas defesas. Sou gigante no que faço. Fui honesto. Aprendi o ofício da luta.

Não quero ser julgado neste labirinto de desordem. Admito, no máximo, ouvir e lutar, se preciso for.

Calado por inteiro, permaneço quieto e em fúria, à espera do pior.

Ouço latidos roucos, luz com tons de maldição. Uma porta pesada, com marcas de letras tortas, se abre.

Uma sequência de letras deformadas nada me diz.

A porta abre-se lentamente, com o barulho de suas ferrugens.

Um corredor largo, de paredes grossas, com outras portas nas cores de carniça, inquieta minha mente.

O que se segue esconde-se por covardia.

A terceira porta está entreaberta. Empurro-a com os pés. Vejo, na parede do fundo, uma sombra distorcida a me espreitar.

Que venham! Tenho meus argumentos, conheço meus princípios. Não serei molestado pela infâmia dos senhores da escuridão.

Espero e escuto ofensas e maldições lançadas com o intento de vencer, mentiras tolas jogadas ao vento.

Percebo tuas intenções e, com rapidez, desvio-me. Com habilidade, coloco sua face sob meus pés.

Maldição, abre a porta da liberdade ou farei teus olhos serem arrancados da tua face pela força dos meus pés, e teus gritos de dor ecoarão por este imundo vale onde habitas.

Aqui não me terás.

Dormindo, estava por bondade; agora, despertei. O ímpeto do mal se desfez.

Com respeito e segurança, volto de onde vim, encontro a paz novamente.

Um anjo que me seguiu me observa, sorrindo, e estende sua mão.

Foi apenas um sonho, escolhido por ele. Só precisava saber quão valente é meu coração e quanta confiança eu carrego.

Vem, temos uma guerra a vencer e tua mão ao meu lado confortará e fortalecerá a esperança da minha vitória.

Diga ao Senhor que Ele terá de mim a promessa da amizade e da gratidão.

Humildemente, peço: se eu ficar cego, serei teus olhos; se mudo, serei tuas palavras; se surdo, serei teus ouvidos, sempre.

Obrigado por eu ter a graça de viver e o prazer de servir.

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