As Desigualdades

Os olhos não me faltam para julgar este tempo de esquecimento.
Julgar a um falso acaso as diferenças que o destino carrega.
Perceber que existe o outro lado da moeda, que sangra e chora.
Não aceitar as pessoas — únicas por suas almas, iguais por seus sentimentos — é desprezar o direito à vida.
Desfiguradas pelo tempo, pelas mãos da sorte e do destino, elas são o que o tempo esqueceu e a covardia aproveitou.
A ingratidão dos afortunados, sem piedade, desfaz-se dos valores, como quem descarta o pequeno, cobrindo o coração manchado pela ganância.
Fere com o erro da injustiça sem o uso da espada.
O olhar dos vencidos pela sorte enxerga a verdade da mentira.
Orvalhos são nuvens que derreteram à noite, sempre as mesmas, num círculo vicioso onde o tempo não reage.
Somos nós.
Mundo que segue sem desejo de mudança: pisa e açoita, geme e grita.
Ter o que, tão perto, te persegue e maltrata… Sentir de tão perto que não te percebe, por quão pouco és.
Alma desfigurada, como cortina retorcida, em prantos com o olhar perdido — não adianta: ainda assim, és despercebido e sem sorte.
São eles os que o destino desdenha e que a sorte não premiou?
Não, são os esquecidos pela esperança e pelos homens ingratos que a injustiça prendeu na caverna da maldade, usando a mentira como arma da necessidade.
Agora, o que te sobra te esquece; tendo para si, não faz conta; o ego domina tua mente.
Nasceste já dono de tudo que quiseste, com ou sem necessidade de ter. Um prazer que escorre como gosma.
Continua e chora, pobre alma: por uma ilusão perdida, pela ajuda esquecida, pela miséria que te afoga pelas costas, pela sorte que não te vê e foge quando te percebe.
Há um mundo em que poucos são ditos premiados — carta marcada — e muitos se escondem, envergonhados, por dividir erros que a história humana nunca quis corrigir.
Ingrata sorte, desumano destino.
O mundo devolverá as maldades que lhe são oferecidas, pagará com desgosto e sangue as injustiças que distorcem as almas dos pequenos, dos desprotegidos que são, pelas mãos dos covardes.
São pecados que apenas cheiram.
Assim segue esta humanidade, no eterno passo da indiferença e do desamor.
Estamos a pouco de encontrar a face do delírio no reino dos afogados.
Esquecidos por Deus?
É preciso esperar um novo Senhor, com a mão da correção e os olhos da esperança.
Chega breve!
Que o princípio seja o novo ato: cortar na carne tudo que passa, recompor sua saga, justiça como princípio, igualdade como dever.
Dores infernais explodem como espumas no rio, calafrios em águas gélidas.
Afogar não é salvação, nem é tradição no reino da criação.
Meu Deus, quanta maldade grita em Teu nome, mentiras cuspidas por falsos profetas!
Há de se ferir para renascer um novo tempo, sem piedade.
Guardo esperança por uma época que florescerá, cobrirá de risos os encostados pelo vento do azar.
Desigualdade, arma sem fogo que mata sem morte e fere sem sangue.
Desigualdade é a imbecilidade de poucos que a vida esconde como troféu de sua sordidez.
Desigualdade é a bruxa que somos de nós mesmos.
Igualdade é uma máscara que usam para poder rir sem ser percebido.
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