A Velhice

Poema 13 de 73
A Velhice

Eis que chego, carregado de memórias, com olhos encurvados pelo tempo e agradecido pelos amores que me sustentam e me deram vida.

Eis que chego, descalço de desejos, abençoado pela vida, coroado pelos amigos que me acompanham e atrevido a viver os dias que ainda me pertencem.

Eis que chego, com o pensamento branco da paz, com a coragem de refletir sobre meus pecados e com a sabedoria para compreender e me preparar para um novo princípio, já determinado pelo destino.

Se for para refletir sobre os anos que me cobriram, que o faça sem falsidade, com a luz do perdão e as recordações dos atos de bondade que ofereci.

Esses são os segredos da minha herança, que usarei para cumprir minhas promessas. Promessas são dívidas, contraídas na agonia do tempo.

Tempo inquieto, de cabelos brancos, que me persegue com os gritos de desejos desnecessários, afasta de mim a vaidade.

Meu tempo não mais permite esses delírios.

Agora vivo para o amanhã.

Agora tenho o direito à liberdade de viver a vida que escolhi; minhas escolhas são de minha responsabilidade.

Aprendi com o tempo que o que se deseja não é o que se precisa, e o que se precisa é o que se pode ter.

Preciso encontrar um abrigo onde, na quietude do momento, eu possa me compreender, para essa nova era que escolho ser de calma, humildade e devoção.

Envelhecer é suportar as diferenças que o espelho te descreve e não mentir sobre a face que te oferece.

Preciso estar preparado para as mudanças de uma nova era que a velhice me impõe e que eu, com coragem, aceito.

Vivemos hoje numa sociedade desprotegida e perdida, que desponta com novas ideias que não me servem.

Minha velhice é antiga, meus hábitos mais ainda.

Meu olhar está inquieto; devo suportar o tempo que me foi dado. Não posso duvidar de tudo pelo que passei, pois sou eu quem acredita.

Minha alma, envelhecida ao longo do tempo, buscou sempre o bem acima do mal em todas as suas épocas; não há por que inverter agora o sentido da escolha.

Os sonhos esquecidos, mesmo os mais belos, são os que não voltam mais; perderam-se no tempo.

Envelhecer é aceitar fazer parte de uma nova história, que caminha rumo a outros princípios.

É esperar por um destino predestinado a me julgar e que eu, em silêncio, aceitarei.

Envelhecer é saber que só se chora pelo passado e, por vezes, pelo presente, jamais pelo futuro.

O futuro é quase sempre brilho e perfume, ou, no mínimo, esperança.

Que venha a velhice. Não me afastarei do meu caminho de sombras; seguirei com meus princípios.

Concluo essa jornada com o mesmo choro de alegria do meu nascimento.

Que venha a velhice. Não tenho dúvidas: todos os tempos são especiais, mas este último carrega as emoções das tarefas realizadas e dos amores guardados.

Obrigado, velhice. Que meus sonhos futuros e minhas recordações passadas sejam o alimento da minha alma, livre do egoísmo e carregada de esperança.

À velhice que agora me acompanha, eu, por prazer e juízo, entrego com gratidão e devoção a alegria de toda a minha jornada que ainda me resta.

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