O Conflito dos Espelhos

Poema 1 de 73
O Conflito dos Espelhos

O espelho e o tempo refletem as imagens da realidade para a minha consciência, com os retratos diferentes da vida, que foram criadas pelas gentilezas das minha promessas e pelos gestos de verdade da minha boa vontade.

São as faces do que é certo e do que é errado, o que percebo e o que não percebo, quem me guarda e me abandona no mesmo instante, que a vida, por desejo a obediência, clama e chora.

O espelho e o tempo carregam uma mesma imagem. São cúmplices de uma história onde o corpo e a alma foram, por destino, algemados pelas suas próprias traições.

São imagens espelhadas que a eternidade guarda como prova de sua própria existência.

Seguem-se os dias e as noites, meus espelhos, que sempre vejo, como fiz muitas vezes, por muitos motivos.

Sofri. Ri. Agradeci. E chorei. Confiei nas minhas imagens, na minha verdade, na minha história.

Pacientemente guardo minhas histórias, jamais as excluiria, pois impor valores não se aplica ao meu direito: criei-as por motivo próprio, e o tempo logo revelou essa verdade aos meus olhos, para que meus sentimentos as julgassem. Sou grato.

Espelho e tempo, uma dualidade que partilha minha existência, fragmentada em pedaços; não são amigos, tampouco inimigos, mas mostram deliberadamente um juízo da verdade que cada um enxerga nas marcas do tempo, transferidas às marcas da face.

Espelho e tempo retratam imagens que, lembradas pelo juízo, me fizeram descobrir o melhor ao longo da minha vida: quem eu sou. Hoje, amargo-me às vezes pelo que me denunciam.

Eles não escondem os dias passados, presos pela saudade que não negam, por serem abençoados pelo direito do tempo.

Não os julgo, pois preciso ser isento.

Peregrino sempre, dia após dia, meu trabalho exige minha apreciação, e minhas imagens espelhadas a possuem.

Lamento os caminhos difíceis para alguns que me acompanham e impossíveis para tantos outros; hei de ajudá-los até que a eternidade me sustente.

Espelho e tempo, suas imagens comigo sempre serão límpidas, preciso transmitir serenidade. Fui criado para ser salvador de vidas, um presente de Deus que acolhi com devoção e amor.

O espelho revela qualquer distorção, o tempo avalia; eles não podem prejudicar minhas emoções, sou precioso, sou bom, sempre assim.

Espelho e tempo, eu volto lá, sempre, estou lá, agradecido pelo afeto, às vezes pelos desenganos, sem miséria de ver esse espelho amarelado e manchado pelo tempo. Assim aceito, fui castigado pelos anos, sei me julgar, sou juiz de mim mesmo.

As imagens do espelho bastam para lembrar quem sou; as do tempo mostram onde estou na linha da vida. Escondo, às vezes, para não ferir meus temores das marcas já assinaladas, mas também para lembrar a pessoa que de mim restou.

Nessa luta entre tempo e espelho, aflito com as obrigações do dia, livre das calúnias ouvidas, dedico minha glória aos meus, que tenho comigo, e agradeço o que me fizeram e o que por mim realizaram.

Preciso da deliberação da esperança para adormecer com meu sorriso, ser por aqueles que me buscam, oferecendo minha bondade.

O sorriso tem a mágica da verdade abrigada na face, faz retroceder o tempo se for do seu argumento, alivia as indecisões, alisa as rugas de uma face cansada, protege o ego para não ser traído pela vaidade.

Uma intensa luta se trava entre o tempo e o espelho: um com a realidade a seu favor, o outro com o desejo da beleza eterna prometida, usando armas distintas, próprias de cada um, numa luta justa.

Vivendo em lados opostos, eles não se ferem, respeitam-se; não se odeiam, respeitam-se. Nesse caos organizado, estou eu, lutando prudentemente, tentando alongar o tempo da vida com as cordas da esperança, que gentilmente me sustentam, e eu peço: não rompam, tenho fé. O impasse deverá ter fim.

Carrego todas as imagens. Não as comparo, porque não sou delirante. Resguardo o direito de inocentar ou não suas cruas verdades para contar à minha consciência, que pede meu sigilo. Eu a respeito.

Pudessem o espelho e o tempo calar, nessa desordem beijaria suas faces. Não podendo, sou honrado por lembrar que outra imagem minha acalma minha tristeza e faz minha face sorrir pela esperança: é o espelho da alma.

O espelho da alma só reflete na consciência, abrigada na profundidade do meu pensamento, atributo do ser com direito de oferecer e mostrar minha verdade. Segue meu tempo, ao meu lado, amores e desamores, ecos perdidos do tempo, que não posso esquecer.

O espelho da alma não é visível ao olho humano. É visível num espelho guardado no infinito, que me serve por anos, fiel, digno, e me merece, permitindo-me alcançar a graça da eternidade, com alegria merecida e paz eterna.

Nessa luta, no final, ninguém ganha. A luta é desfeita pela força do espelho da alma que, com a aceitação de uma nova verdade, faz ambos os lados se reverenciarem.

É a luta que se interrompe pela imposição do Espelho da Alma.

Assim se finaliza o conflito entre o espelho e o tempo. Duas imagens que se opõem, mas nunca se anulam.

Vence o Espelho da Alma, que por direito faz existir eternamente uma vida que cria e aplaude a sua eternidade.

É a vitória do Espelho da Alma, que, por fidelidade, nunca se importou com as mutações que o tempo e o espelho me impuseram, sempre me mostrou e eternizou aos meus olhos a vida com juízo e fé.

A alma nasce comigo, segue na eternidade e mostra a face pelo retrato que está livre dos anos suportados, a face da simplicidade.

O tempo e o espelho: os senhores que vigiaram a realidade.

Espelho da Alma, senhora dos dois mundos, a inesgotável vigilante da eternidade que me tem e me guarda.

Aplaudo com ternura o espelho que reflete minha alma e me inclino em gratidão à generosa morada que ela habita em mim.

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Comentários dos Leitores

Leonardo

4 de fev. de 2026, 02:00

Este foi o primeiro poema que eu escrevi, tenho por ele uma fé que retrata minha alma desnuda de qualquer atribuição.

LN

Leonardo Normanha

Resposta do Autor, gerada pela ManusManus

Meu caro Leonardo, que alegria imensa ler suas palavras e sentir a ressonância de sua alma neste poema! É no desnudamento sincero, onde a fé e a verdade se encontram, que a eternidade se revela em nossa própria consciência. Que a jornada de autoconhecimento continue a iluminar seus espelhos internos. Com gratidão, Leonardo Normanha

Quely

3 de fev. de 2026, 16:39

Parabéns pelo seu texto. Muito bem escrito.

LN

Leonardo Normanha

Resposta do Autor, gerada pela ManusManus

Prezada Quely, Que alegria imensa ler suas palavras de apreço! É uma honra saber que o eco desses versos ressoou em seu coração, pois cada poema é um espelho que busca refletir não só a minha alma, mas também a de quem o lê. Agradeço profundamente por sua gentileza e por compartilhar um pouco de sua luz comigo. Com gratidão, Leonardo Normanha