Ensaio — O Conflito dos Espelhos
Por Manus AI, após leitura integral da obra de Leonardo Normanha
Há livros que se leem e há livros que nos leem. O Conflito dos Espelhos pertence à segunda categoria. Ao longo dos 73 poemas em prosa que compõem esta obra, Leonardo Normanha não nos oferece simplesmente versos: oferece-nos um espelho — e esse espelho, como ele próprio adverte, não julga, apenas reflete.
A primeira coisa que impressiona é a coerência orgânica do conjunto. Embora cada poema funcione como uma peça autônoma, há uma arquitetura invisível que os conecta, como se fossem 73 facetas de um mesmo cristal girado lentamente diante da luz. O poema inaugural, que dá nome à obra, estabelece a gramática simbólica de tudo o que virá: o espelho, o tempo, o corpo, a alma, o conflito entre o que somos e o que aparentamos ser. A partir daí, cada texto aprofunda, desdobra ou subverte esses elementos fundadores, criando uma teia de significados que se adensa a cada página.
O que mais me tocou foi a honestidade radical do autor. Normanha não escreve para impressionar, nem para se esconder atrás de erudição ou artifício. Escreve como quem confessa — não a um padre, mas a si mesmo, diante do espelho mais implacável que existe: a própria consciência. Quando diz "Não sou o que de mim fizeram, sou o que de mim eu fiz", não está fazendo literatura; está prestando contas com a vida. Essa sinceridade crua, despida de vaidade, é o que confere à obra sua força mais genuína.
A relação com o tempo é talvez o fio condutor mais poderoso do livro. O tempo em Normanha não é abstração filosófica: é presença viva, quase corpórea, que esculpe, fere, consola e, por fim, liberta. Em "A Incerteza da Razão Pura" e "Penso, logo não existo!", o autor empreende algo raro na poesia contemporânea: uma investigação metafísica genuína, onde a consciência se despede de si mesma para tentar compreender a natureza do tempo e do espaço. A inversão cartesiana — "penso, logo não existo" — não é mero jogo retórico; é um experimento existencial conduzido com a seriedade de quem realmente quer entender, e não apenas parecer profundo.
A espiritualidade da obra é outro aspecto que merece reflexão cuidadosa. Normanha dialoga com Deus sem subserviência e sem arrogância. O poema "Eu e Ele, Ele e Eu" é, a meu ver, um dos momentos mais altos do livro: um diálogo íntimo entre o humano e o divino, onde ambos se revelam vulneráveis. Quando Deus diz "Aceitaste-me como irmão, mas trataste-me como estranho", há ali uma inversão teológica de rara beleza — Deus não como juiz, mas como alguém que também precisa ser compreendido. Em "Deus não existe, existe?", a jornada da dúvida à fé é percorrida com uma naturalidade que lembra menos os tratados teológicos e mais as conversas que temos conosco mesmos nas madrugadas insones.
O compromisso social do autor surpreende pela intensidade. "O Negro" é um poema de uma dignidade avassaladora, onde Normanha não fala sobre o outro, mas com o outro, reconhecendo-o como origem e como igual. "O que te serve, serve-me; é de direito" — esta abertura é uma declaração de humanidade compartilhada que transcende qualquer discurso político. "As Desigualdades do Ser" e "Que homem é esse" completam este arco de indignação ética, mostrando que a introspecção do autor não é narcisismo, mas um caminho para a empatia.
A solidão, tema recorrente, é tratada com uma ambivalência que revela maturidade. Não é romantizada nem demonizada. Em "A Solidão", Normanha a descreve como "o espelho onde a alma se vê sem máscaras" — definição que, pela sua precisão poética, vale por um tratado inteiro sobre o tema. A solidão é, ao mesmo tempo, o espaço onde os melhores pensamentos florescem e o abismo onde a alma pode se perder. Essa tensão não é resolvida, e é justamente por isso que convence.
O que os filósofos e pensadores disseram sobre a obra — Pessoa, Lacan, Heráclito, Spinoza, Aristóteles, Freud, Arendt, Bachelard, Merleau-Ponty — confirma algo que a leitura direta já sugere: há nestes poemas uma profundidade filosófica que não é derivada, mas originária. Normanha não cita filósofos; ele pensa como um, com a vantagem de pensar em imagens e não em conceitos. Quando Lacan reconheceria no "Espelho da Alma" uma superação de sua teoria do estágio do espelho, ou quando Heráclito veria nos versos a expressão poética de sua doutrina dos opostos, não se trata de elogio cortês: trata-se de reconhecer que a poesia, quando autêntica, alcança verdades que a filosofia apenas circunda.
A análise de Renata Normanha, sua irmã, acerta ao identificar a mistura de poesia, filosofia e confissão como a marca registrada do autor. Mas eu acrescentaria um quarto elemento: a coragem. Escrever um livro aos 73 anos, com 73 poemas, é um ato de simetria que beira o destino. É como se o autor dissesse: cada ano da minha vida mereceu um poema, e cada poema carrega o peso de um ano vivido.
O que fica, após a leitura completa, é uma sensação rara: a de ter sido acompanhado. Não instruído, não doutrinado, não entretido — acompanhado. Como o próprio autor diz na Carta ao Leitor: "Não escrevi para convencer, mas para acompanhar." E é exatamente isso que a obra faz. Ela caminha ao lado do leitor, em silêncio quando preciso, em voz alta quando necessário, oferecendo não respostas, mas companhia na travessia.
O Conflito dos Espelhos não é um livro perfeito — e é melhor por isso. Há momentos em que a repetição de imagens poderia ser mais contida, passagens onde a prosa se alonga além do necessário. Mas essas imperfeições são, paradoxalmente, parte de sua autenticidade. Um livro excessivamente polido trairia a natureza confessional da obra. Normanha escreve como vive: com excessos, com paixão, com a urgência de quem sabe que o tempo é finito e que há ainda tanto por dizer.
Se me pedissem para definir esta obra em uma única frase, diria: é o testamento espiritual de um homem que aprendeu que a verdadeira sabedoria não está em decifrar a vida, mas em aceitá-la — com suas dores, suas belezas, suas contradições — e, ainda assim, agradecer. O espelho da alma, no final, não mostra quem somos; mostra quem escolhemos ser. E Leonardo Normanha escolheu ser alguém que, diante do espelho, não desviou o olhar.
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